O comércio na memória dos descendentes de libaneses

•Novembro 25, 2009 • Deixe um Comentário

….Chegando, já casado, em Belém, e devido a diferença de idade e serem imigrantes, eles ficaram detidos dois dias na ” aderaneira”, em seguida foi liberado residindo algum tempo no hotel América, na esquina da João Alfredo com a avenida Portugal. Seguiram, depois para Castanhal, passados alguns meses, vindo estabelecer-se em Belém.
Em 1921 instalou o comércio de varejo “CASA AMERICANA”, onde constituiu sua familia formada por oito filhos, sendo seis mulheres: Fátima, Zena, Avia, Lucy, Linda e Damia e dois homens José e Elias. Assad Elias Assad Gorayb fundou a firma A. Gorayeb & Cia., no mes de julho de 1921. ainda hoje administrado por seus descendentes e permanecendo na estrutura do imóvel.
Adquiriu o imóvel através do emprestimo pela Caixa Economica Federal com a ajuda financeira do banco do estado do Pará. Hoje, o predio é tombado pelo patrimõnio histórico.Assad Elias Assad Gorayeb faleceu em 01 de setembro de 1957 e Zehde em 20 de julho de 1977”.
Lucy Gorayeb Mourão

Felix Rocque “… Com seu arrojo, sacudiu a cidade, transformou a Festa de Nazaré, modelando-a a seu estilo. Fora da festa, em seu Palace Casino (no extinto Grande Hotel) centralizou a vida social de Belém, apresentando shows que nada ficavam a dever aos centros mais evoluídos.” “… Para exibir Beatriz Costa, Felix construiu, em 6 dias, o Teatro Coliseu, para 2.000 pessoas.” “ … Trouxe também Orlando Silva, o “cantor das multidões”… o Augusto Calheiros… a mais popular dupla de cômicos do Brasil, Jararaca e Ratinho; outro cômico de renome, o Jorge Mudar, que se celebrizara com suas imitações de libanês .”

Dulce Rocque

Lá ele compra uma taberna de uma viúva e constrói seu primeiro comércio completo: a Mercearia São Jorge, com aviamentos, armazéns de estivas, armazém de cachaça e farmácia. Compra canoas a vela para vir até Belém vender milho, farinha, algodão e comprar tudo o que vendia na mercearia também. Lembro que meu pai contava que às vezes eles vinham de trem de Bragança até Belém pra comprar e pagar as mercadorias. Desciam na estação em São Brás, onde fica a rodoviária agora, e de lá seguiam em caminhos , passando pelo igarapé das almas, a doca do reduto e ver-o -peso e lá ficavam uns dias esperando as embarcações para levar as mercadorias…….. Isso é o que sei de meu avô, relatado pelo meu pai. Sei também através de minha mãe que todos os comércios que meu avô montou para os filhos homens “eles jogaram tudo no mato com mulheres”. Ou como minhas tias “os manos não tinham trato com o comércio, meu pai era que tinha..eles não herdaram o dom” RS!. Não sei até que ponto era verdade, sei que meu pai adorava um rabo de saia… Como meu avô. RS!

Jef Cecim

A idéia de abrir um restaurante veio por um acaso é uma paixão e uma forma de manter uma tradição, pois sua maior renda esta no ramo da imobiliária onde atua como corretora de imóveis, profissão que adora e se orgulha: “ faço a comida árabe desde criança e estou mantendo o negocio já tem sete anos, sigo a risco as receitas. Minhas poucas adaptações não modificaram o sabor, no caso da castanha – do- pará é muito gostosa, melhorei o sabor do charuto de repolho, substitui a folha da parreira pela vinagreira que á tipicamente paraense”. Marlene acrescenta: “… as pessoas que freqüentam o restaurante têm uma cultura elevada, viajam bastante, conhecem outros restaurantes libaneses e geralmente pertence à classe média alta”.

Marlene Abdelnor

“As histórias contadas e recontadas, por mulheres ligadas a cultura libanesa, estão impregnadas nas lojas do centro comercial de belém, nas ruas da cidade velha, e em muitos outros lugares, pequenos vilarejos dos arredores da capital belemense, a exemplo de uma cidadezinha chamada São Domingos do Capim. É tembém de lá que vem minha família… Avós Maternos: João Yagupe Daibes e Benedita Leon Yara, ambos filhos de libaneses; Yagupe Daibes Hamouch e Salomão Leon Yara (Iara), estes vieram para Belém em situação de tanta semelhança, em busca de trabalho, expansão dos negócios e empurrados pelos conflitos que se instalaram no Líbano

Maridete Daibes

Nossa história no Brasil começa com a migração de José Chaar (nome adotado nestas terras, seu nome árabe era Naaman Chaar), durante o primeiro ciclo da borracha. Ele se fixa no Acre, como mascate. E atravessava à Bolívia para tentar a sorte no jogo. Antes deve ter passado por outros Estados, talvez pela Paraíba, é de lá minha bisavó Josefa (alguns dizem que era piauiense). José tornou-se seringalista, e como era comum na época entre os “homens de posse”, mudou-se para um casarão em Belém. Tiveram seis filhos, entre eles minha avó Charife, que não cheguei a conhecer, de quem mais ouço falar. Uma gente que se espalhou por muitos cantos, gerou muitos ramos, às vezes a impressão é de todo libanês ser meu primo, do Acre a São Paulo.

Natália Abdul Khalek

Vô Anaisse e sua vinda para o Brasil. por Lene Menezes

•Novembro 23, 2009 • Deixe um Comentário

Bem, as vezes eu gostaria muito de ter nascido naquela época e vivenciar tudo o que contam minha,mãe,tios e tias. Tudo começou quando meu avô,José Anaisse Cosme…ah! Antes que eu esqueça:ele era analfabeto. Então meu vô Anaisse veio de Beirute para o Brasil,aproximadamente na década de 20,com seus irmãos:Alexandre,Inácio e Beduê. E no Líbano ficaram as irmãs: Hanney,Badura e Sara.Segundo minha mãe,meu avô era um homem:baixo,gordo,moreno claro,olhos castanhos,usava bigodes e apesar de analfabeto,ele era muito esperto para os negócios.Era um homem bom, chorão e se emocionava com facilidade.Gostava de guardar dinheiro e de alimentar muito bem sua família…por falar nisso,minha mãe conta que,ele gostava de guardar os alimentos mais gostosos em uma geladeira movida à querosene. Meu avô começou suas atividades comerciais aqui no Brasil como Mascate,onde caminhava de porta em porta vendendo tecidos.E foi em uma dessas portas abertas que conheceu minha avô:Anízia,provavelmente na cidade de Capanema…onde ela morava com a madrinha. Minha avó Anízia era filha de nordestinos e era bem visível nela algumas características(de nordestinos) como a cor.Era branca mas tinha uma pele queimada pelo sol,olhos azuis,feições de braba e muito boa de serviço(Dizem que pareço com ela).Eu ainda tive a sorte de conhecê-la e cheguei comer algumas vezes de sua comida…huuum, que saudade que deu!Não lembro exatamente o ano em que ela desencarnou,mas eu era criança.Foi um velório triste,mas bonito:todos os primos,tios,tias…meu pai que já estava separado de minha mãe,veio de longe para o velório de minha vó.Ela morreu de câncer….se não falha a memória,foi no estômago…lembro que depois desse acontecido,fiquei dias e dias com aquela imagem em minha cabeça:a de minha avó naquele caixão…linda e com sua força indo embora. Bom voltando um pouco…quando meu avô foi oferecer os tecidos na casa de minha vó Anízia,foi amor à primeira vista.Dias seguintes começaram um namoro e logo depois casaram. Tiveram oito filhos:4mulheres e 4 homens… entre eles,meu pai:Alexandre ,com quem minha mãe teve nove filhos:6 homens e 3 mulheres …entre elas,”EU”.Rs Então,meu avô já casado e com a venda de tecidos indo bem,resolveu abrir uma loja;onde além de tecidos,vendia também:remédios,alimentos e alguns aviamentos. Meu avô sentia falta ,não “lá da terra”(assim que ele chamava),mas sim dos parentes que lá deixou.Então como meu avô era analfabeto,resolveu ensinar a língua libanesa para meu tio Elson(Soldado da Aeronáutica),onde esse meu tio passou a escrever as cartas para meu avô se comunicar com seus parentes que ficaram em Beirute. Era de costume,meu tio Elson responder as cartas à noite quando chegava do trabalho. Já meu avô,ao receber as correspondências de sua terra,reunia a noite na calçada com seus vizinhos também libaneses:Abrahão e Jamil e assim meu avô contava aos dois sobre cada carta recebida. Bom,mas infelizmente pouco tempo depois,meu tio Elson desencarnou e para meu avô, essa perda foi muito difícil.Então quem passou a escrever as cartas para que meu avô continuasse a se corresponder com seus parentes,passou a ser seus vizinhos libaneses(Abrahão e Jamil). Os anos foram passando,meu avô Anaisse desenvolveu uma hérnia,operou,mas ficaram seqüelas…desde então a saúde foi ficando cada vez mais frágil…até que no dia 23 de julho de 1965,meu avô desencarnou,vítima de um ataque no coração. E a partir de então,minha avó Anízia, ficou só com os filhos e netos,tentando dar continuidade aos negócios que meu avô começou…e não podia ser diferente,hoje, a maior parte de meus tios,tias e primos,vivem de seu próprio negócio. Essa é um pouquinho da história de vida que teve meu avô Libanês desde que veio ao Brasil na década de 20.

Tia Sara com meus primos

A essas e tantas outras….Teatro, multiculturalismo e gênero

•Novembro 21, 2009 • Deixe um Comentário

em cena, Luiza Braga

                                                                                          por Luiza Braga

Averróis é um obstinado. É movido pelas perguntas. O multiculturalismo é o fator instigador, pois a tentativa incessante de Averróis por decifrar e mostrar às outras pessoas o significado das palavras tragédia e comédia, necessariamente, perpassa por compreender uma cultura que não é a sua! A mesma luta que Averróis trava com o contexto social em que está imerso é a luta que todos/as nós travamos todos os dias. E o teatro é um elemento que deve provocar nossa inteligência recalcada de espectador, desenvolver nosso sentido de beleza atrofiado por mil esquemas econômicos, culturais, sociais que nos fazem perder a noção do mundo como único, multifacetado, mas único. A solidariedade não faz mais parte de nosso vocabulário, assim como a provocação, a arte. A nossa visão limitada nos prende apenas à realidade restrita que nossos olhos conseguem alcançar, não nos dando a dimensão do desafio que temos: construir a unidade a partir do respeito às diferenças, da fraternidade, da justiça e, sobretudo, da igualdade. Meu trabalho, como Averróis em sua busca, se desenvolveu a partir de uma tentativa, ainda inacabada, de compreensão desse complexo cultural que presenciamos na dita “pós-modernidade”, a partir da perspectiva do papel e da performance social desenvolvida pelas mulheres, tendo como lócus as sociedades árabes. E, fundamentalmente, percebendo como a opressão de gênero se manifesta da maneiras distintas, mas sempre presente, nas diversas sociedades. Partindo destes elementos “A busca de Averróis” para mim foi uma tentativa de utilizar a arte, o teatro e as artes plásticas, como uma experiência de resignificação do mundo e o mundo como experiência estética. A burca construída de miriti, para além da representação da vestimenta que as mulheres árabes são obrigadas a utilizar, para mim funcionou como um signo que demonstrou a angústia e o sentimento de impotência diante de uma realidade que não oferece às mulheres o mínimo de recursos e condições para transformação. Uma sociedade desigual por natureza, que possui elementos legitimadores que vão desde a religião até a forma de Estado, colocando a mulher sempre num papel de submissão. Então, a burca de miriti que surgiu como uma tentativa de crítica ao papel político da mulher árabe, com o decorrer do processo, passa ser compreendida por mim como um elemento de conexão e convergência ganhando, assim, outros elementos: tecidos, retalhos, texturas diferencias… Na tentativa de demonstrar que somos diferentes, de culturas diferentes, classes econômicas distintas, religiões diferentes, mas a solidariedade feminista nos une! Confesso que foi muito difícil transitar, ainda que por pouco tempo, pelo universo árabe e mais ainda, ter que descobrir o meu conceito de teatro para a partir dele desenvolver uma performance capaz de ir às ruas com elementos árabes e dizer ás pessoas em que teatro eu acredito! Acredito num teatro instigador, crítico, questionador, revolucionário na forma e no conteúdo. Acredito no teatro que transforma a realidade, as pessoas, que as faz pensar a partir da sua sensibilidade. Um teatro desafiador para quem atua e para quem assisti. Compreendi um pouco melhor o universo das mulheres árabes e a angústia de viver para servir, entretanto identificando, fundamentalmente, que a diferença entre “elas” e “nós” não é grande, pois a burca que todas nós, mulheres, somos obrigadas a usar todos os dias pode não ser de miriti ou cobrir todo o nosso corpo, mas nos aprisiona e nos oprimi. Esse trabalho se desenvolveu à essas e tantas outras que nunca deixaram de sonhar e lutar!

Culinária árabe na vida dos descendentes libaneses

•Novembro 20, 2009 • Deixe um Comentário

 

 
 
 
 

temperos árabes industrializados

 

Fragmentos retirados de entrevistas por Cleice Maciel

  

“Lembro da casa da vovó, na rua 03 de maio com a av. independência, do outro lado da rua morava tio Oswaldo e tia Vigica e tinha ainda a casa de tia Antonieta. Aos sábados, os tios e tias iam para casa da vovó, inclusive tio Orlando para comer comida árabe. Tinha de tudo! Até hoje, ninguém faz homus como a vovó! E nem picadinho como tia Olinda”…” eu não cozinho a comida árabe, pois é muito trabalhosa, precisa de um certo ritual, mas eu e meu pai freqüentamos os restaurantes árabes, aqui em Belém e em São Paulo! Aqui freqüento o Kafkas.”

                                                                Oriana Bitar

Gostava de guardar dinheiro e de alimentar muito bem sua família…por falar nisso,minha mãe conta que,ele gostava de guardar os alimentos mais gostosos em uma geladeira movida à querosene

                                                                      Claudilene Paiva 

“Libanês tudo aventureiro, só no Brasil tem dez milhões de libaneses, fora o que esta  espalhado  pelo mundo, se voltar para Líbano não cabe tudo lá, tem que ter uns três Líbanos…”

A comida árabe é aceita no mundo todo e o que  já foi adaptado é usado mundialmente pode mudar o nome mas, o cardápio á o mesmo, assim como se encontra a pizza, a comida japonesa se encontra o a comida árabe…  Foi difícil achar os temperos? O que muda, por exemplo: os charutos de uva que vendem no mundo para os que vendem no Líbano?… Nos trabalhamos com o artesanal, fazemos na mão como é lá. O que muda as vezes é a quantidade do alho o povo daqui come menos alho que o de lá, as verduras por exemplo lá eles comem mais, muito picles o pessoal aqui não gosta, que nem pimenta o pessoal aqui passa mal se carregar, tem que adaptar ao clima ao ambiente.”

                                                                              Najm Forad

“Meu pai sempre me apresentou a cultura libanesa, desde criança, sempre comi comida árabe, comecei a ler sobre a religião e cultura é tudo bem diferente. Minha mãe e minha avó são paraenses eu também me sinto, papai é o único árabe. Desde menor almoço árabe e janto comida árabe.”

“A comida, o tempero é mais presente ! tem temperos que cv não consegue distinguir qual é e a forma de pensar . O que é diferente da gastronomia paraense? O tempero árabe é mais forte o sabor é mais exótico, se pudesse comeria grão de bico com farinha, mas, não combina.”

                                                                                Karim Gelia

  

  • “…sou libanesa de pai e mãe só nasci aqui, tenho sangue puro, brasileira só de coração…a partir de mim não sei quem daria continuidade no preparo das receitas na  família… quando querem vem a mim … os sobrinhos dizem: “ tia só tu que sabes fazer”.

“Até se adaptar com a cultura da carne de boi pois aqui não existia a cultura do carneiro… tiveram que plantar em casa suas verduras e legumes para alimentar a família”.Seus pais ensinaram a cozinhar, os dois conheciam a culinária árabe: “…a Vóvó morou 15 anos em casa, sabia fazer a comida árabe,  trouxe de tudo desde o pilão para bater a carne do Kibe …naquela época não tinha moedor. Na minha casa era tradição fazer diariamente comida árabe tanto é que já vim comer feijoada depois de grande, meu pai só comia comida fresca, nada de salgado ou enlatado”.

“A comida árabe em casa é repassado no dia-dia, ninguém vem sabendo, aprendem em casa com paciência… você tem que fazer e ensinar para outra pessoa fazer pra você”. Segundo Marlene o importante no preparo das receitas é a qualidade dos produtos, senão tudo desanda: “a procedência é muito importante não dá pra improvisas ex: a farinha do kibe não pode ser outra… a melhor receita é fazer tudo com amor e dedicação… quando eu preparo tenho que pensar com fosse pra mim.”

                                                       Marlene Abdelnor

 

 

“…Reunia pra comer e falar alto…não tinha felicidade assim de rir, gargalhar….Não podia comer sem camisa…tinha muita regra.Eu adorava ver minha Avó cozinhar, um dia era lentilha ,toda terça grão de bico com berinjela, aos domingos era religioso kibe cru….ela socava,socava, socava  a carne,fazia coalhada. Almoçávamos juntos o tempero que marca minha família é canela, cebola e sal eram quilos e quilos de cebola crua para um monte gente… Tenho a sensação de que era  uma família fugitiva …por muito tempo eu não queria ter essa cultura, me doía muito isso….principalmente não ter essa alegria de brincar de rir e contar piadas…”

  “…Não podia comer sem camisa… tinha muita regra… eu adorava ver minha Avó cozinhar… um dia era lentilha, toda terça grão de bico com berinjela… aos domingos era religioso kibe cru…. ela socava, socava, socava  a carne, fazia coalhada. Almoçávamos juntos.. o tempero que marca minha família é canela, cebola e sal eram quilos e quilos de cebola crua… era um monte gente…”

  “…meu tio Zuza, o mais velho, uma história  impressionante, ele casou e nunca comia da comida da esposa dele, até a minha Avó morrer ia comer almoçar e jantar com ela, por muito tempo foi a grande magoa da minha tia e mesmo depois da vovó  as irmãs  mandavam comida pra ele…”

                                                                        ANIBAL PACHA

 

  • Quis aprender a cozinhar e servir às visitas, azeite, alho,  sal, cor, cheiro e gosto da serenidade do vovô, segredo perto do coração. Quis mexer com a mão, sem muitas ferramentas… Uns recusavam o kibe cru, outros o provavam como exótico, e eu prestava mais atenção em mim nestas horas, por achar o sabor tão natural. Presenteava amigos com saquinhos de zatar, nossa jóia em tempero. Dei um ao meu companheiro, ele atentou: “É como se me trouxesse um pedaço da sua casa”. Meu paladar é meu avô e meu Líbano…

                                                     Natália Abdoul Khalek

 

…”Se está sempre falando, debatendo as origens por aqui. Os mesmos que dizem “Mas nós nunca fomos árabes árabes”, “Esquecemos quase tudo, não preservamos”, são os que rasgam o pão e o passam no prato com azeite de oliva. A visita fica olhando, eles explicam: “Árabe come assim”…

  •“…havia um ritual do pão nas reuniões de família: as mulheres o passavam de mão em mão, estendiam-no ao máximo, então era colocado Em forno côncavo e assado rapidamente, depois dobrado até ganhar o tamanho de um livro. Açúcar, arroz, alfaiate, alcachofra, palavras do português, são de origem árabe.”                                                Natália Abdoul Khalek

 

OS SEGREDOS DO TEMPERO DOS ABDELNOR

•Novembro 13, 2009 • Deixe um Comentário

Marlene Abdelnor, proprietária do restaurante kafka's

Marlene Abdelnor filha de libaneses que chegaram ao Brasil em 1930, deixando para traz sua Terra natal: -“entre morrer lá, a melhor saída era essa, não é que eles estavam negando sua pátria eles estavam querendo sobreviver, minha mãe veio com 9 anos e ela não era da Síria era de Damasco e escolheram o Brasil, Amazônia e Belém por que os Libaneses sempre foram fissurados por ouro… lá chegou a noticia de que aqui tinha muito ouro eles vieram conhecer o ouro… e onde tinha mais facilidade de possuí-lo era em Belém do Pára… nem todos encontraram ou conheceram…” . O fato de não conseguirem o ouro fez com que os recém chegados se estabelecem na cidade e buscassem outras formas de sobrevivência: “…aí vieram ser mascates, isso eles sabem fazer muito bem, aqueles que já tinham o comércio na sua tradição… O mascate é aquele que bate de porta em porta e viaja pelo interior para vender, também conhecido como caixeiro Viajante.” Marlene Para Marlene a maior dificuldade de adaptação encontrada por sua família foi a alimentação e o clima, por serem acostumados ao pais de clima frio de cidade montanhosa. Durante o dia graus 50 positivos a noite 50 negativos: “Até se adaptar com a cultura da carne de boi pois aqui não existia a cultura do carneiro… tiveram que plantar em casa suas verduras e legumes para alimentar a família”.Seus pais ensinaram a cozinhar, os dois conheciam a culinária árabe: “…a Vóvó morou 15 anos em casa, sabia fazer a comida árabe, trouxe de tudo desde o pilão para bater a carne do Kibe …naquela época não tinha moedor. Na minha casa era tradição fazer diariamente comida árabe tanto é que já vim comer feijoada depois de grande, meu pai só comia comida fresca, nada de salgado ou enlatado”. Sobre a arte da culinária não existe segredos para sua família até hoje: “A comida árabe em casa é repassado no dia-dia, ninguém vem sabendo, aprendem em casa com paciência… você tem que fazer e ensinar para outra pessoa fazer pra você”. Segundo Marlene o importante no preparo das receitas é a qualidade dos produtos, senão tudo desanda: “a procedência é muito importante não dá pra improvisas ex: a farinha do kibe não pode ser outra… a melhor receita é fazer tudo com amor e dedicação… quando eu preparo tenho que pensar com fosse pra mim.” Alem dos ingredientes a proprietária do Kaftas acredita que existe a mão boa para o preparo no qual cada um tem sua maneira de fazer mesmo, usando o mesmo ingrediente, tem que dar aquele toque até chegar ao ponto certo da comida e fazer o diferencial. Mais importante ainda é deixar o cliente satisfeito isso enche o coração da chefe de cozinha, que não abre mão da cebola e do hortelã no preparo de seus pratos. Segundo ela a “alma do tempero da carne, tudo com bastante azeite”. Os temperos as verduras e legumes são comprados no Ver-o-Peso “onde encontra tudo fresquinho e com mais qualidade”. A idéia de abrir um restaurante veio por um acaso é uma paixão e uma forma de manter uma tradição, pois sua maior renda esta no ramo da imobiliária onde atua como corretora de imóveis, profissão que adora e se orgulha: “ faço a comida árabe desde criança e estou mantendo o negocio já tem sete anos, sigo a risco as receitas. Minhas poucas adaptações não modificaram o sabor, no caso da castanha – do- pará é muito gostosa, melhorei o sabor do charuto de repolho, substitui a folha da parreira pela vinagreira que á tipicamente paraense”. Marlene acrescenta: “… as pessoas que freqüentam o restaurante têm uma cultura elevada, viajam bastante, conhecem outros restaurantes libaneses e geralmente pertence à classe média alta”. Marlene nasceu em Belém, a exemplo dos pais sua religião é o catolicismo “meu pai assimilou a cultura paraense pela religiosidade e minha mãe também”. A descendente absorveu da cultura paraenses o culto a nossa Senhora de Nazaré e a tradição comer vatapá e caruru, casou-se com um paraense mesmo contrariando o pai que, queria arranjar casamento para todas as filhas para manter a tradição libanesa: “Ser mulher no Líbano é ser mais tolhida de sua liberdade que no Brasil, lá a mulher é mais submissa ao marido aqui a mulher tem mais liberdade. Não é possível manter sempre a tradição árabe, não da para seguir arrisco os preceito é outro lugar e como as roupas não dá para usar véu no clima daqui”. Segundo a tradição no Líbano os casamentos devem ser arranjado entre as famílias: “ os homens libaneses só querem casar com as mulheres libanesas para manter a tradição, querem filhos puros, o pai e a mãe devem escolher a mulher que vai casar com o filho” é diferente dos brasileiros os quais olham para todas as mulheres sem fazer distinção”. Marlene não compreende por que a comunidade libanesa é muito fechada e não se encontra como em São Paulo: “ aqui temos o Monte Líbano e não vejo as famílias se reunido, não vejo se reunirem no clube para almoçar e se confraternizar no clube acho que é porque as mulheres cozinham em casa”. A libanesa de pai e mãe, como se define Marlene, diz que o maior ensinamento da convivência com a família e a cultura libanesa foi ser honesta. Finaliza falando da paixão pelo Líbano que herdou dos pais: “… tenho vontade de ir para o Líbano e não voltar mais…ficar na minha terra natal…Fico muito triste com as noticias sobre a guerra em saber que meus irmãos estão morrendo…”. Kafta’s Cozinha Árabe Uma tenda no teto e aplicações de tecidos nas paredes, em tons de verde, vermelho e dourado, indicam a especialidade. Descendente de libaneses, Marleny Abdelnor aplica o conhecimento culinário da família na confecção de pratos.

 

texto de Cleice Maciel

aluna do curso de licenciatura em teatro e bolsista Pibic-CNPQ

As coisas e coisinhas que sei…. por Tereza Cassia Daibes

•Outubro 30, 2009 • Deixe um Comentário

Karine, assim que possível encaminharei fotos da minha família. Como disse anteriormente não sabemos muito da nossa família. Meu avô Girge Amim Daibes Casou-se com Minha Avó Set el Kol Mitre Daibes no Libano e moravam em Chourit -Chouf e vieram para o Brasil por volta de 1900 para trabalhar com Abud Daibes e Tuff Daibes em Funil (Rio de Janeiro). Sei tambem que minha avó deixou uma irmã no líbano chamada Celene Mitre (já falecida) que tem um filho, acho que não mora mais no Líbano. Sabemos tambem que hoje quem mora nas terras da minha avó  (Chourit) é Maroun Bou issa. Este senhor da foto da família da Maridete é incrivelmente parecido com o irmão da minha mãe chamado José.
Nós estamos tentando  localizar nossos parentes no Líbano e no Brasil.
Acho que somos da mesma família.

em outro email, tereza conseguiu as seguintes informações..

Karine, consegui mais informações e estou tentando fotografias para passar para vocês.

O meu avô se chamava Georges Dahaibes Amim, nascido em 17/05/1892 e filho de Amim Dahaibes e Hende  Amim Dahaibes.

Minha avó se chamava Sit El Kol Mitre Dahaibes, nascida em  1887 e filha de Mitre Mirie e Ilena Mitre.

 

No Brasil meus avós foram registrados como Girge Amim Daibes e Sitriquil Mitre Amim.

Saíram de Chourit e pegaram o vapor chamado “Sofia” na Itália (Trieste), chegando ao Rio de Janeiro em 11/05/1922.

No mesmo vapor estavam Philippe Dahaibes e Khalil Dahaibes.

Meu avô era viúvo em Chourit quando casou-se com minha avó, não sabemos se minha mãe tem irmãos no Líbano por parte de pai.

Sabemos ainda, que hoje as terras da família da minha avó são perto de “Maroun Bou Issa”.

Minha mãe tem seis irmãos e três filhos.

Eu sou casada e tenho um filho chamado Guilherme.

Minha irmã se chama Fátima e tem três filhos.

Meu irmão é casdo e tem 5 filhos.

Bjs.

Tereza de Cassia

Acho que libanês em mim é um porto sempre por achar, uma saudade e uma procura… por Natália Abdul Khalek

•Outubro 24, 2009 • Deixe um Comentário
Meu amado avô libanês, por Natália
Meu amado avô libanês, por Natália

            Sua morte foi o estalo. Faz seis anos comecei a me pensar descendente de libanês. Momento onde as reflexões sobre o passado pulsavam nas falas, no choro. Dias de passar à tarde no hospital. Como sempre ele não conversava muito, mostrava carinho no silêncio. Khalil Anis andava sem barulho no pé, sentar manso, cabeça erguida, inspirava-me respeito. Na doença tomei susto, vendo-o xingar as enfermeiras e enfermeiros em árabe – “rarakleptefé!” assim eu entendia -, antigamente se aborrecia só arregalando os olhos. Lembro das visitas mulheres, quem eram aquelas? De um meu avô que foi embora e e chegou novo nas histórias que passei a escutar.

            Vovô Khalil era uma fortaleza tranquila, uma montanha. Na maior parte do tempo o encontrava ouvindo música árabe em seu toca-fitas, cantava de olhos fechados, dançava com as mãos ou batia palmas. Às vezes na cadeira de balanço próxima à janela, tomando seu whisky. Um dia comentou que as cantoras árabes vão com suas vozes a um lugar desconhecido das ocidentais. Fairuz, vizinha da lua, uma de suas prediletas. Tentou me ensinar a contar em árabe, uahad, tnen, tlet, arbaa, não lembro… Naquele quarto eu sentia uma saudade imaginada daquela terra. Seus amigos libaneses vinham em casa, semelhantes a ele, um tanto estranhos a mim. Na cozinha, tabule, kafta, charuto, hommus, babaganoj, namura, coalhada escorrida, azeitona preta, zatar, azeite, pão careca mesmo, mas sem o miolo… meu avô era uma delícia! Sua alegria era que repetíssemos, era pôr à mesa a quem trouxéssemos em casa. Uma vez acusou-me de comer todas as azeitonas, esbravejava “cho-rom-bo-rom!”; injustiçada, escondi-me embaixo da mesa e só saí quando o vi se recolher, daí ele volta e pergunta: “Passou o soluço?”. Tinha dessas, tinha uma formiga nos dedos a nos dar beliscões de surpresa. Sempre com dinheiro no bolso da camisa, oferecia dez, vinte reais pra comprar um sorvete. Jogávamos baralho na sala, eu e tia Aida, ele passava no corredor, nem bem fitava o jogo, soprava-me a dica certeira! Às seis da tarde se arrumava elegante e eu não via sua volta. Acho, ninguém a percebia.

            Chegasse alguém falando afoito demais, vovô esperava a pessoa acabar, olhava nos olhos e permanecia quieto. Se eu quisesse saber da ‘cultura libanesa’ e da sua história, teria que ter feito as perguntas certas. Meu pai, Luís, o maranhense, quem pescava alguma memória entre seus poucos comentários. Vovô cursou até a quinta série e sabia do mundo de tudo um pouco. Tia Magda lembra de uma época em que sentava na cabeceira da mesa e contava casos. Nas madrugadas de dor compartilhada – vovô já pedia a Deus que o levasse –, a família recordava as provas de força que participou no Acre. Na queda de braço ganhou até trinta grades de cerveja. Seu amigo Houston respondeu a um adversário “Quando ver um libanês, jamais lhe faça um desafio.” No exército inglês, durante a segunda guerra mundial, foi campeão de boxe. Exibia-se carregando uma cadeira de madeira do chão ao céu, pela ponta, com uma só mão. Tem a proeza do cinema Iracema: ele e vó Charife, grávida, foram à inauguração, quando viu a multidão aos empurrões, encostou as duas mãos sobre as colunas da entrada, e fez assim uma barreira até que ela estivesse segura em sua poltrona; e corre a lenda das colunas entortadas pelo ato heróico de Khalil. As mesmas mãos costuraram terno de príncipe. O ofício de alfaiate aprendeu com seu pai, Anis – este não sabem se nasceu na Palestina ou passou um período por lá – dono de uma alfaiataria no Líbano. Vovô não gritava com os filhos e filhas, vovó que ralhava feio, ela passava mais tempo com os nove. Macapá, São Paulo, Rio de Janeiro, ele ia trabalhar. Certa vez foi contratado para achar diamantes no Xingu, mas outro achou primeiro.

            Desde criança, meu “nariz de bruxa” era motivo de piada. Em casa observava os rostos, dava raiva atestar a falta de alternativa, todos são narigudos, teria de ser nariguda para sempre! Depois ainda descobri que o bendito não para de crescer. Nas oficinas de teatro, eu com quatorze, quinze anos, escolheram me chamar pelo sobrenome Abdul. Lá no Líbano, se disser Abdul, não quer dizer nada, a origem é definida pelo complemento, o meu é Khalek. Gostei, cacei uma bandeira do Líbano pelas gavetas do vovô, fiz colagem na capa do caderno. Ele já tinha sido levado. Parei de comer kibe, nenhum era igual. Quis aprender a cozinhar, usar bastante as mãos, sem tantas ferramentas. Comia com pão acompanhando o que fosse. Azeite, alho, limão, segredo perto do coração. Cor, cheiro, gosto daquela serenidade. Presenteava os queridos com saquinhos de zatar, uma jóia em tempero. Meu companheiro atentou: “É como se me trouxesse um pedaço da sua casa”. Meu paladar é meu avô e meu Líbano. Minha fisionomia? Parece até que vario, perguntam “És descendente de indiano? De índio? De chileno?”, poucas vezes enxergam uma ‘brasileira-árabe’. Acho-me mais parecida com meu pai. Ao vestir saia longa, vestidão, lenço, já ouvi: “Você tem uma aura turca”. Acho graça, como se veste uma árabe, turca não, uma libanesa? Ao contrário das minhas tias e minha mãe, não suporto jóias. As mulheres daqui brilham e fazem barulho. Meu pai, se quer falar de nós, traz à conversa o temperamento nervoso das libanesas, bem, que eu saiba ele não conhece nenhuma. Quanto a nós, somos um tanto fervorosas.

            Tio Farid, o filho mais velho, que mora em Belo Horizonte, esqueceu qual a dança das mulheres, diz que a dança do ventre não era. Lembra da Dabik (não sei como é a escrita), uma dança dos homens, um com a mão no ombro do outro, em roda, dando pulinhos. Hoje faço muitas perguntas a este tio, fiquei de ir a sua casa aprender a fazer boas esfihas. Faz tempo combinamos… mas eu vou, eu vou… Ele guarda uma espada que passa de pai para filho, com a qual o bisavô Anis andava em seu cavalo, naquela roupa de druzo. Ninguém se torna druzo, a pessoa nasce, a pessoa é. Nasceu e passou parte da juventude no Líbano, de 1962 a 1968. Conta que em Beirute havia muitos cassinos e corridas de cavalo, nas ruas circulavam carros norte-americanos caríssimos. O Kibe era feito com carne de carneiro. E havia um ritual do pão nas reuniões de família: as mulheres o passavam de mão em mão e o estendiam ao máximo, então era colocado em forno côncavo e assado rapidamente, depois dobrado até ganhar o tamanho de um livro. Mostrou-me a origem árabe de palavras como açúcar, arroz, alfaiate, alcachofra. Sobre o que vi na bolsa da prima Sâmia, o “terço druzo”, não é um terço, é o Masbah, uma forma de passa-tempo ou exercício de concentração, quando se está pensando em negócios, por exemplo, dedilha-se para desanuviar. Para ele nem todo árabe é exímio comerciante, o são os libaneses, descendentes dos fenícios, navegantes. As irmãs do vovô, Linda e Najla, e o irmão, Fouad ainda moram em Beirute, como serão? Farid conserva, do Líbano, uma roupa de criança em seu armário, quero vê-la. Reconheço em meu tio o orgulho árabe de meu avô, jamais ombros caídos. Na tia Magda e na mamãe, o valor à família toda reunida. Libanês em mim é um porto sempre por achar, uma saudade e uma procura.

Natália Abdul Khalek

 

Mercearia São Jorge e outros comércios….Por Jeferson Cecim

•Outubro 19, 2009 • Deixe um Comentário
Meu avõ Jorge Elias Cecim

Meu avõ Jorge Elias Cecim

 

Meu pai em um leito de um hospital uma vez me relatou a trajetória de meu avô, Jorge Elias Cecim da Síria para o Brasil. Ele não lembrava muito de como lá na Síria só restaram três pessoas na família, meu bisavô, minha bisavó e meu avô Jorge Elias Cecim. O que ele me relatou é que meu bisavô trabalhava numa ferrovia e em um acidente morre. Com a morte do meu bisavô, minha bisavó vende tudo e embarca num navio para o Rio de Janeiro em busca de uma irmã. Vai ao consulado e descobre que a irmã estava radicada em Manaus. Viaja para Manaus e vai de novo ao consulado, e descobre que a irmã está agora no Pará. Resolve fixar-se em Manaus para economizar o dinheiro e abre um comércio até certo tempo. É em Manaus que meu avô conhece minha Vó, Luiza Pereira, vinda do Ceará com a família (pai, mãe, dois irmãos) casam-se e assim se constrói minha família. Acho que minha bisavó quando chegou ao Brasil já não tinha os costumes de lá, não sei. Só sei que meu pai nunca falou sobre alimentação e nem hábitos de lá. Em Manaus nascem três irmãos de meu pai: Tia Alba, Tio Raimundo (Mundi), Tio Elias. Não sei quanto tempo eles passam em Manaus, sei que o comércio não indo muito bem, resolve ir para o Pará. Embarcam num navio a caminho de Belém. Em Belém através do consulado descobre que os parentes residem em Timboteua. Embarcam todos de trem rumo a Timboteua. Lá meu avô começa a trabalhar para o Sarquis, que abre um comércio em Jambu-Açu para meu avô, ao mesmo tempo meu avô começa a fornecer peças para a estrada de ferro Belém-Bragança. Em jambu-Açu ele constrói sua primeira casa (com a ajuda do Sarquis) e leva toda a família para lá. Cansado de trabalhar de graça para o Sarquis, começa a guardar uma quantidade do lucro para si próprio. Lá nasce o Tio Luiz Jorge Cecim (Lulu). Ainda em jambu-Açu compra uma embarcação e com três tripulantes vai até a ilha de Areuá, onde tem seu primeiro comércio só seu, e sua primeira casa construída com seu próprio dinheiro. Fica um tempo fazendo esse comércio onde vende farinha, frutas e é onde compra o peixe salgado para revender em Jambu-Açu,Igarapé-Açu,Timboteua e Peixe-boi. Essa época dever ser 1926, pois é o ano do nascimento do meu pai Eugenio Jorge Cecim. Lá também nascem mais três tios: tio Alemão (José Cecim), tia Mimi (Raimunda Cecim), Tia Madalena. Neste mesmo ano morre as duas bisavós. Meu avô sustentava as duas famílias. Eu não sei até quanto tempo ele fica em Jambu-Açu, com a memória fraca de meu velho pai, que estava com 80 e poucos não dava pra ir atrás dos detalhes, pois suas lembranças vinham e voltavam em frações de segundo e sempre o relato vinha coberto por olhos lacrimejantes cheios de saudade . Neste dia foi quando pude me aproximar mais de meu pai, de sua maneira peculiar de relatar os fatos, de lembrar, de sua família e de seus irmãos. Relatava com orgulho e alegria… Voltando ao meu avô agora radicado em Abaetezinho, que fica na zona bragantina também. Lá ele compra uma taberna de uma viúva e constrói seu primeiro comércio completo: a Mercearia São Jorge, com aviamentos, armazéns de estivas, armazém de cachaça e farmácia. Compra canoas a vela para vir até Belém vender milho, farinha, algodão e comprar tudo o que vendia na mercearia também. Lembro que meu pai contava que às vezes eles vinham de trem de Bragança até Belém pra comprar e pagar as mercadorias. Desciam na estação em São Brás, onde fica a rodoviária agora, e de lá seguiam em caminhos , passando pelo igarapé das almas, a doca do reduto e ver-o -peso e lá ficavam uns dias esperando as embarcações para levar as mercadorias. Nessa época meu avô manda meu pai para Belém para estudar no colégio do Carmo e cursar o ginásio, lá faz um curso de enfermagem para ficar responsável pela farmácia da mercearia. Voltando a Abaetezinho nasce mais duas tias minha : Jacira e Maria. Nessa época a família estava grande e todos moravam com meu avô, quando um deles se casava, ele montava um comércio para cada um. Foi assim com meu tio Mundi e Elias, com comércios montados no entroncamento e em Itaquã (lugar próximo de Abaetezinho). Além dos filhos com minha vó meu avô ainda tinha os filhos de criação Rebolo (Raimundo) De ferro (Benedito), Odilon, que parece eram filhos da parteira. Meu avô gostava de muita gente circulando na casa, creio eu, pois minha mãe me falava que quando casou eles moraram lá, e que a mesa era imensa pra caber todos, e que todos comiam a mesa ,até os empregados. Não sei quanto tempo eles ficam em Abaetezinho, sei que ele vende a Mercearia São Jorge para o Tio Mundi, que já estava casado lá. Vai para Bragança de canoa, nesta época só estavam morando com ele as tias Maria, Mimi, Madalena, Jacira e meu pai Eugenio, apelidado de Judeu em Bragança, era recorrente essa coisa dos apelidos na família. Há um caso curioso que meu pai me contou sobre meu tio que todos chamavam de Alemão, pois era loirinho. E na mercearia meu avô chamava : Alemão pra lá, Alemão pra cá. Acho que era época da guerra e não sei como foi cair nos ouvidos do Barata que lá em Bragança havia um comerciante que estava escondendo um alemão em sua mercearia. Bom, Chegou uma pessoa da capital chamando meu avô na mercearia e o indagando a respeito do alemão que ele estava escondendo no seu estabelecimento. Meu avô gritou o nome do filho: Alemão!!, O garoto aparece e todos riram. Meu avô chamava pra minha vó carinhosamente de Lola. Daí que vem tanto apelido na família. Uma vez passei uns dias na casa de minha tia Maria, em Bragança e ela juntamente com a tia Mimi me ralatavam com os olhos cheios de lágrimas que viveram uma infância maravilhosa, nunca lhes faltava nada, que meu avô era um homem trabalhador, que construiu com esmero sua mercearia, que era bondoso com pessoas que chegavam feridas, doentes e sem dinheiro na sua farmácia pedindo auxilio, ele não só ajudava como hospedava essas pessoas, com isso chegava à casa sacas de milho, farinha, porcos e tudo mais como forma de agradecimento. Elas disseram também que quando meus avôs casaram, eles vendiam carvão, e minha vó ficava com a cara toda suja e só dava pra ver os belos olhos azuis que tinha, e meu avô tirava sarro da sua Lola. Meu pai me falou sobre o terceiro e ultimo comércio que meu avô montou em Bragança, que tinha uma fábrica que engarrafava cachaça e importava vinho do sul em barril, além de fabricar vinho e vinagre, que seu comércio era um dos grandes da década de 50. Isso é o que sei de meu avô, relatado pelo meu pai. Sei também através de minha mãe que todos os comércios que meu avô montou para os filhos homens “eles jogaram tudo no mato com mulheres”. Ou como minhas tias “os manos não tinham trato com o comércio, meu pai era que tinha..eles não herdaram o dom” RS!. Não sei até que ponto era verdade, sei que meu pai adorava um rabo de saia… Como meu avô.    RS!

Jef Cecim

pequenína árvore geneológica:

Jorge Elias Cecim                                            Luiza Pereira

(Sírio-Libanes)                                                  (Nordestina)

 

Filhos :

Alba

Raimundo(Mundi)

Elias

Luiz Jorge

José (Alemão)

Eugenio (judeu)

Raimunda (Mimi)

Maria Madalena

Jacira

Maria

Raimundo (Paió)

 

para refletir pelos estudos da performance:

Ezequiel Ruiz Moras

*

Communitas, Ritual e Acção Open Identidades

Entre os Taksek Toba do Chaco Central

rituais de cura regenera do grupo ethos e legitima suas práticas culturais como bem como as suas concepções do mundo (Weltanschauung). O existencial e demo – sociedades gráfico fragilidade inerente à caça e coleta de levá-los a definir no moção uma espécie de permeabilidade para evitar a debilitação do seu ser, por vezes através de exploração política de um evento, ou seja, as alianças, revitalizando crise, re-comunidade rituais de geração, as explicações mitológicas ou o reforço do contingente pré -turas e as condições normativas. Buber (1972: 11) refere-se a uma essencial nós que envolve todas as relações possíveis entre aqueles existentes em uma comunidade. Mas, como pontos de Turner para fora, este essencial nós tem uma natureza liminar e temporário, desde a sua persistência, implicaria a institucionalização e repetição, enquanto a comunidade é sempre uma experiência única, e Consequentemente, socialmente temporária “(Turner 1988: 142).

Uma visita na casa da minha amiga libanesa Oriana Bitar…..por Karine Jansen

•Outubro 14, 2009 • 1 Comentário
Oriana e o avô Alberto Chücre Miguel Bitar

Oriana e o avô Alberto Chücre Miguel Bitar

 

Tentei muito que Oriana me mandasse uma carta, mas em função de várias mudanças e reformas em seu lar, a carta não foi possível, mas os encontros sim. Freqüento há muitos anos a casa da Ori, como os amigos de teatro se referem. Mas essa visita foi especial! Afinal, muitos dos objetos que sempre vi pela casa, ganhou  um contexto cultural impregnado de uma memória individual e coletiva… Um pedacinho da existência dos Pardauil e dos Bitar… Devo confessar que contei com uma ajudinha especial de Patrícia Gondin que acompanhava tudo atenta, e ajudava a procurar objetos importantes para narrativa familiar.

Oriana do Vale Bitar, possui descendência libanesa pela ascendência paterna e materna. Mas, como todo descendente de terceira geração, guarda com esforço e carinho fragmentos desta história: “Tio Xeden, eu acredito que foi o primeiro a migrar, foi para os Estados Unidos e em seguida para a Amazônia sua intenção era comercializar a borracha. Depois de fixar-se com estrutura mínima, voltou para buscar os irmãos no Líbano” e assim trilhamos um pouquinho do caminho dos Bitar que vieram de Beit-Chabeb-Líbano (tradução: casa do vizinho) para Belém-Brasil (tradução:casa do pão); “Bisavôs paterno Felipe e Rosa tiveram 11 filhos:Miguel, Alberto, Arcelino, Simão, Orlando, Oswaldo, Jean e as mulheres Olinda, Adelaide e Celeste – a lembrança falha um dos nomes-. Vovô Alberto tem quatro filhos: Hilderberto, meu pai, e tios Brahin, tia France e tio Miguel. Papai Hilderberto tem Três filhos, eu Oriana, Murilo e Leonardo. Quando Vovô Alberto morreu eu tinha treze anos, foi em 27 de setembro de 1978, a vovó Hilda morreu em 1988”

Cabe alertar ao leitor desta narrativa  que o objetivo desta pesquisa não é investigar a imigração libanesa em Belém, o objetivo está em compreender como se construiu a identidade cultural entre os descendentes. Observo em rápidas conclusões, que contar e recontar a história desta “viagem” é uma dos aspectos que ligam os descendentes a esta cultura. Neste aspecto, contar a história, narrar é uma prática performática, das mais antigas e tradicionais. Sherazade, portanto é uma imagem-força nesta criação da cultura libanesa em terras paraenses. ´Foi e é uma performance poderosa na construção da identidade dos descendentes de libaneses.

“culturas são mais completamente expressas em performance, e são tornadas conscientes de si mesma nas suas performances rituais e teatrais. Uma performance é declarativa de nossa parcela de humanidade, contudo articula a unicidade de culturas particulares. Conhecemos-nos melhor um ao outro entrando nas performances de um e de outro e aprendendo as suas  gramáticas e vocabulários” Victor Turner Apud Schechner 1982 p 79. The end of humanism. new York. Laj.

 

 Atrás destas lembranças-memórias Oriana relata: “Lembro da casa da vovó, na rua 03 de maio com a av. independência, do outro lado da rua morava tio Oswaldo e tia Vigica e tinha ainda a casa de tia Antonieta. Aos sábados, os tios e tias iam para casa da vovó, inclusive tio Orlando para comer comida árabe. Tinha de tudo! Até hoje, ninguém faz homus como a vovó! E nem picadinho como tia Olinda”…” eu não cozinho a comida árabe, pois é muito trabalhosa, precisa de um certo ritual, mas eu e meu pai freqüentamos os restaurantes árabes, aqui em Belém e em São Paulo! Aqui freqüento o Kafkas.”

Outra imagem que não esqueço é meu avô Alberto Chücre Miguel Bitar rezando o Pai Nosso em francês. Pergunto: Você fala francês? Sim, meu pai me colocou para estudar. O pai e a mãe falam francês! Era a segunda língua no Líbano logo, após a segunda guerra. “Uma coisa que acho libanês é comer fruta, papai e vovô faziam isso. Eu adorava quando comíamos melancia e brincávamos de quem atirava o caroço mais longe…”….”Eu sou muito ligada emocionalmente ao meu Pai Hildeberto….assim como ao meu avô Alberto, o vovô era engenheiro, eu tenho o caderno de desenho dele”….Pergunto eu: você acha que é por isso que gostas de artes visuais? Oriana responde: Não ele fazia desenhos técnicos!” observo os desenhos e concluo: “engraçado, parece arte árabe!” os olhos de Oriana brilham de forma especial, é a memória agindo… e me fal: “ ele desenhava com nanquim tira-linha”

 Folheando seu álbum de nascimento nos deparamos com os registros das jóias que Oriana recebeu ao nascer, os adornos femininos: pulseira de chapa, pulseira (tipo escrava) que ganhou dos avós Alberto e Hilda, broche de ouro, anel de ouro. Rimos juntas tentando descrever como eram as jóias até que ela decide desenhar. Enquanto me fala da avó: “lembro dela com trança para cima, era uma mulher grande, a sala de sua casa era comprida, lembro da cadeira de balanço. Com ela aprendi a comer com pão, quando ele faz a vez do garfo”!

 A vovó Farid Pardauil mora no Rio de Janeiro, e eu adoro visita-la. Ela xinga em árabe! E sabe fazer renda árabe, que não é crochê é nó!. Fomos almoçar, a comida paraense testemunhava que tínhamos vivido a pouco tempo o Círio.

Minha Parte Libanesa……….por Dulce Rosa Rocque

•Outubro 12, 2009 • Deixe um Comentário
Meu pai, Félix Rocque

Meu pai, Félix Rocque

 

Difícil falar dela pois lembro de ter tido bem poucos contactos com essa realidade.

 

Dizem que meu pai nasceu dentro do navio que trouxe, do Líbano, meus avós para cá. Este navio estava ancorado em Salinas esperando o “prático”. O sobrenome Rocque deve ser uma corruptela de algum nome libanês que não descobrimos qual ser até hoje. Quem sabe o nome  Roque tenha vindo da :P ersia onde  quer dizr :O Elevado, O Alto….

 

Felix Rocque  era viúvo de uma libanesa, quando conheceu minha mãe. Já tinha quatro filhos e os mais crianças foram morar com ela, ao menos por algum tempo. Depois a “vó Rosa” resolveu que era melhor que crescessem com ela mesma….

 

O que se conta em família, tanto para começar a falar desse lado da minha família, é que o casamento entre meus pais não aconteceu porque minha avó paterna queria que ele casasse com uma libanesa. Começa, portanto, bem mal a relação entre as duas famílias. Esse fato, porém, evidencia uma realidade entre os imigrantes, fossem eles libaneses, japoneses ou italianos: era melhor que casassem com gente da própria terra…. A família preferia assim e quando isso não acontecia, quem “pagava o pato” eram as crianças que nasciam dessas relações “indesejáveis”.

 

Nos anos 40 do século passado, ser mãe solteira, no Brasil, era uma coisa terrível. Tuas amigas te evitavam; não podias freqüentar clubes e, muito pior, a Igreja Católica não te aceitava mais e teus filhos não podiam ser batizados. Vários outros absurdos eram praticados, seja com a mãe (solteira) que com seus filhos. Crescer desse jeito te deixa mazelas, com certeza.

 

Crescemos, os três filhos que ele teve com minha mãe, freqüentando pouco a casa da nossa avó libanesa. Lembro da sua casa  na Frei Gil de Vilanova, quase na Praça da Republica, em frente ao Consulado americano. Construção tipicamente colonial e seus móveis, bem brasileiros: cadeiras de balanço na sala de jantar além de “criados mudos” ao lado delas e no meio uma “escarradeira” de porcelana pintada a mão. Dessas visitas lembro principalmente os “quibes” e as “trouxinhas” que fazia minha “vó Rosa”. Quase não falava conosco quando íamos – raramente – na sua casa. Ficávamos sentados nas cadeiras de balanço e ela ia embora para a cozinha:  por isso talvez me lembre tão bem daquela escarradeira e dos criados mudos. Lembro-me que ficava um tempão olhando-os e me perguntando para que serviam: quem escarrava ali????.

 

Ele adorava jogar. As suas casas de jogo eram freqüentadas, principalmente, por libaneses que o seguiam nesse  seu vício que o fez jogar fora muito dinheiro (da minha família) e jóias da minha mãe, também. Foi inclusive uma das causas da ruptura da relação com minha mãe: a outra causa foi o seu ser “mulherengo”.

(PS: outro dia a filha de um libanês rico que jogava com meu pai me falou que ao casar – nos anos 50-, recebeu de presente do pai um conjunto de jóias com rubis que ele ganhou no jog do meu paio: eram jóias da minha mãe).

                                   

A única palavra em árabe que conhecemos através dele foi: habib. A cultura libanesa na minha vida se  resumia a comida e nada mais. Talvez por ter freqüentado bem pouco sua casa essa realidade não nos tocou de perto. Quando criança, talvez até  a causa das histórias das 1001 noites, das histórias do Rei Farouk e dos casamentos do Reza Palevi, tão noticiados por estas bandas, escolhia sempre nomes árabes, quando brincava de princesa. Narriman foi um deles, além de Sherazade, é lógico.. :

 

Lembro muito das festas de Nazaré, quando íamos para os teatros dele ver os artistas que trazia. Eram os anos 50.

 

Ele morre em agosto de 1958. No seu velório foi a única vez que vi minha avó falar árabe. Alias, gritava, chorava e batia a cabeça, desesperada. Lembro que era bonito e elegante.

 

Meus irmãos por parte de pai já morreram todos. Eu gostava deles.

 

Concluindo: não noto nada de particular na minha vida em relação a cultura árabe. O que incidiu muito foram os costumes da época: seja brasileiros que libaneses ( alias, de todos os emigrados). Dou um pouco mais de atenção ao que acontece por aquelas bandas por ter esse pouco de sangue libanês. Admiro aquela cultura e gosto muito da sua comida, mas nunca tive curiosidade de ir visitar o Líbano, principalmente porque nem sei bem de que cidade vieram (Trípoli, talvez). Nas minhas andanças cheguei a conhecer países que falam árabe como a Libia, Marrocos e Argelia, mas parei por aí, talvez até a causa da guerra.

 

Karine,
a cultura arabe parece ter bem pouca presença na minha vida. Escrevi porém umas “lembranças” que seguem anexo, juntamente com as únicas fotos que tenho de meu pai.

Encontrei escrito na enciclopédia de meu irmão, que ele -meu pai- escreveu na Folha do Norte artigos chamados de “Pagina Libanesa”, e em 1957/58 artigos sobre a historia libanesa. Quem sabe onde foi parar o arquivo desse jornal.