Natália Abdul Khalek Mendonça, e as visões que me tecem Brasileiramente, árabe!

FAMÍLIA ABDUL KHALEK

FAMÍLIA ABDUL KHALEK

            Por aqui costumam dizer “Pergunta para o fulano que ele sabe mais”. Cá longe dos mais velhos ou dos reconhecidos como “os que sabem contar”, recebo a provocação “Conte a história da sua família, a que tu sabes”. E a Mãe disse logo cedo: “Mas tu sabes alguma coisa?”… Pedaços de histórias o que ouço, gente que é de um lugar e não de outro, parentescos que se confundem sem fim, heroínas e heróis, dúvida se se é, a afirmação dos sentidos que comem, diferente, a “lembrança ninguém me tira”… Sei o que continuo eu, porque não morre, nem sequer adormece. Decido por este chão, no qual meus pés, nossos, não estão fincados, e o que passo a percorrer são seus des-caminhos, nunca os mesmos, nunca o mesmo chão, nunca os mesmos pés.

            Nossa história no Brasil começa com a migração de José Chaar (nome adotado nestas terras, seu nome árabe era Naaman Chaar), durante o primeiro ciclo da borracha. Ele se fixa no Acre, como mascate. E atravessava à Bolívia para tentar a sorte no jogo. Antes deve ter passado por outros Estados, talvez pela Paraíba, é de lá minha bisavó Josefa (alguns dizem que era piauiense). José tornou-se seringalista, e como era comum na época entre os “homens de posse”, mudou-se para um casarão em Belém. Tiveram seis filhos, entre eles minha avó Charife, que não cheguei a conhecer, de quem mais ouço falar. Uma gente que se espalhou por muitos cantos, gerou muitos ramos, às vezes a impressão é de todo libanês ser meu primo, do Acre a São Paulo.

            Ao contrário do que pensei até um dia deste, vovó não nasceu no Líbano, é natural do Acre. E eu que gostava de dizer: “Meu avô e minha avó nasceram lá”. Ela ia ser freira, preparou-se a vida inteira, quando seu pai lhe premia com uma viagem para conhecer os parentes, e em Beirouth se apaixona. Passou um dia encantada pelo primo Farid Anis, mas quando o irmão deste chegou em casa, mudou de direção: com Khalil Anis se deu a união Chaar Abdul Khalek. Isto depois dele vir ao Brasil, apresentar-se aos pais da noiva e da realização da cerimônia. Cada família pertence a uma cidade, a dos Chaar é Ainab, no Monte Líbano; a dos Abdul Khalek, Majdelbana. Entre eles havia druzos e maronitas, meu avô era druzo, convertido ao catolicismo com o matrimônio.

             Moraram no casarão, onde nasceu o primeiro filho, Farid. Retornaram à Beirouth um período depois, do ventre saiu José. De volta à Belém, a tradição familiar de mais de seis se cumpre: Mona Valentina, Aida Maria, Najla Cristina, Linda Elizabeth (minha mãe, seu nome é referência a uma atriz inglesa, como o de uma tia sua por parte de pai), Magda Helena e Anis. Em um dia dos namorados vó Charife presenteou vô Khalil com um papel de carta, onze coelhinhos ilustrados,  dois com uma flor no colo eram os filhos que morreram. Novamente o destino aponta para o Oriente, e os pequenos lá se criam por cinco anos.

             Com exceção da tia Aida e do tio Anis, destes tempos todos herdam o francês, segunda língua ensinada nas escolas, e os três mais velhos ainda arrastam o árabe. Recordam as janelas fechadas e cortinas pretas e a hora certa de estar em casa, a partir das seis da tarde. Problemas na fronteira com Israel, ao sul, a guerra próxima. A avó por parte de pai, Saide, com cabelos totalmente brancos, longuíssimos. Tia Aida a penteava, “o tempo parava” ― olho bem à penteadeira de madeira antiga do seu quarto, vejo a cena de cumplicidade, o reflexo da beleza tão comentada no espelho manchado. A neve, as montanhas, os cedros e as oliveiras compunham o cenário sublime e imponente pelo qual passeavam, reencontrado por mim em Khalil Gibran, por ele levada ao misticismo do lugar. A diversão de apanhar figos. As ruínas, romanas? O lamento, o Líbano antes era a suíça do Oriente. E tem mais, se deixasses tua carteira no banco da praça, no outro dia a acharias no mesmo lugar, isso ouvi do vovô.

             Inquietou-me foi esta falta de paradeiro, mas por que não paravam? Minha vó é lembrada quase como uma santa católica, pessoas que por acaso encontrei, emocionam-se quando me descobrem sua neta. “Educada, culta, acolhedora, extremamente caridosa, elegantíssima, mãe zelosa, porém rígida, prendada, costureira de mão cheia…”, e me vêm teimosas as imagens da santa, da freira, para o desgosto dos que a conheceram “Não, tu não entendes, ela era mais que isso”. Aos nove anos sismei que a via em minhas andanças de bicicleta, parava na curva e dizia “Vó, assim eu vou cair”, entrava em casa e demorava olhando o seu retrato de noiva. Nessa época ela era uma anja. Hoje somei outros modo de vê-la, ainda com o hábito, mas com ele suspenso por um nó, pisando em terreno alagado, com um monte de criança atrás e no colo. Uma mistura de suas histórias com uma lembrança de minha mãe, tirando água da nossa primeira morada, xingando o mundo, com pano na cabeça e vassoura feito arma. É que minha mãe é a mais parecida com a vovó, eram parceiras na lida doméstica e nas confidências. É que Charife poderia ter sido dondoca, mas foi a única das irmãs a casar com um libanês, embora trabalhador, sem o espírito da acumulação.

             Na última viagem, o plano estava decidido: morar de vez no Líbano era o desejo de meu avô. Eles voltaram ao Brasil porque a guerra se anunciava. Lá a mulher teria menos liberdade, a educação das crianças era mais severa, qualquer parente, sem conhecimento dos pais, poderia repreender verbal ou fisicamente os desobedientes, vovó não se adaptava. E, motivo mais forte, o bisavô José estava doente, sem ninguém que lhe cuidasse. Ela era sua predileta, ficou ao seu lado esperando a morte, vendo-a dar os primeiros sinais… Ele partiu quando a filha se retirou para ir ao banheiro.

            Com quarenta e seis anos, teve aqui a caçula Soumaya. Estranho, na época, uma mulher com esta idade ainda parir. Sentia vergonha, mas o orgulho da família era maior. Minha mãe conta que ela não abria mão de vestir bem as filhas e filhos, não lhe faltava habilidade para o improviso e por ser considerada entre os libaneses, ia nas lojas de tecido com uma lista, prontamente atendida pela amizade. E assim eles participavam das festas da colônia, dos passeios com as primas, impecáveis. Com os médicos também, conhecidos os atendiam. E com o dono da mercearia, a conta ela ia negociando. Entre os cortes, fios, pontos, retalhos, nós de minha vó incansável, meu avô teve mercadinho, trabalhou em bingos, era bom jogador, meu tio vendeu patos, meu tio teve táxi… e foi assim: navegar é preciso, viver não é preciso.

             Costurando assim os ditos, o que sei é até bastante. Se está sempre falando, debatendo as origens por aqui. Os mesmos que dizem “Mas nós nunca fomos árabes árabes”, “Esquecemos quase tudo, não preservamos”, são os que rasgam o pão e o passam no prato com azeite de oliva. A visita fica olhando, eles explicam: “Árabe come assim”. São os que sussurram segredos no francês não entendido pelos mais novos. Reconhecem no primogênito o predileto, portador de autoridade, embora errasse tanto quanto os outros. Irritam-se com a brincadeira que guarda a ofensa, ao dar o sobrenome: “É… família de terrorista”; com os apelidos, tio Anis brigou com um por chamá-lo insistentemente de Jesus Cristo. Orgulham-se quando alguém acha curioso, bonito, e se interessa em perguntar de onde vem. E arriscam um “Ah, o nosso povo é assim, emotivo demais”.

             Vó Charife morreu com cinquenta e cinco anos, na juventude tivera uma saúde frágil. O casarão foi dividido entre os Chaar, e com a herança compraram uma nova casa. Aqui se inicia um outro capítulo, para eles que perderam a mãe e para mim, que morei nessa casa ― meu lugar de convivência com vovô Khalil. A segunda provocação que responderei: “O que é libanês em ti?”. A Mãe disse de pronto: “Teu avô”, representante da ancestralidade presente, no tempero equilibrado do hommus, nas músicas de vozes femininas com tons orientais, no “L” enrolado, na bandeira emoldurada. O próximo escrito terá mais de meu avô, de mim, Natália Abdul Khalek Mendonça, e as visões alheias que me tecem brasileiramente árabe.

~ por Karine Jansen em Setembro 28, 2009.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: