Podemos conversar e vou lembrando coisas que eu ouvia….por Anibal Pacha, no Líbano é Bacha


Meus avôs Maternos e Elias e Salime Pacha

Meus avôs Maternos e Elias e Salime Pacha

Falando comigo o Estranho apareceu. Sempre tive a sensação de está em um lugar estranho com pessoas estranhas.

Meu pai, fugitivo político, deixou sua família, amigos e sua arte em Portugal. As correspondências da “terrinha” eram o que acalmavam o seu coração. Pintava compulsivamente temas portugueses. E para se sentir brasileiro, acho eu e que não funcionava, pintava personagens de todas as regiões do Brasil. Eu era um observador, um aprendiz. Eu ficava horas vendo os traços, as pinceladas, as misturas de cores e o rosto de meu pai.

Minha mãe, filha de libaneses, se sentia mais brasileira. Meu avô era um senhor calado e de poucas palavras. Sentado sempre na cabeceira da mesa e com seu copo de vinho tinto a sua frente. Todos tinham seus lugares marcados à mesa. Era sagrado estar na hora para o almoço e para o jantar. Aos domingos tinha a mesa das crianças e dos adultos. Minha avó era a mandona. Falava sempre em árabe com minha tia avó, irmã solteira de meu avô. Eu adorava aos domingos  ficar observando ela fazer as comidas do almoço de toda a família. Eu observava o jeito que contava, em árabe, os pedaços de carne crua para o kibe. Tinha que dar para todos.  Ela socava em um pilão de mármore a carne e o burburo (era como ela chamava a farinha de kibe) até quase a hora de servir. Era sempre uma festa. A dispensa da casa era meu lugar mágico. Era grande e tinha muitos frascos e recipientes e coisas que eu não sabia o que eram. Eu ficava horas olhando e abrindo tudo. Quando eu tinha que me esconder era para lá que eu ia.

Vinha avó tinha o olhar para fora que penetrava em todos. Meu avô o olhar pra dentro que nem de meu pai. Talvez saudades.

Antes da adolescência tudo era natural. Nenhum amigo, brincar apenas com os primos e primas, que eram muitos, as reuniões de todos os tios aos domingos, muito barulho e muitas palavras ao mesmo tempo.

No primário e no ginásio era sempre do colégio para casa e de casa para o colégio. No científico, a última etapa dos estudos para ingressar na universidade, comecei a sair com os amigos e percebia que os costumes e hábitos eram diferentes. O “Estranho” apareceu...eu me sentia um estrangeiro.

Tentei negar minha descendência para poder criar raiz. Não adiantou. O sentimento era de um “Estranho”. Comecei a me interessar pela cultura indígena. Comprei todos os livros que apareciam na minha frente, freqüentei todos os encontros que o tema fosse povos nativos. Talvez para me sentir menos estrangeiro. Não deu certo. Estava na cara, na minha cara, no corpo por inteiro. Descobri que estava na alma. Rendi a minha inquietação e comecei a exalar o perfume das minhas origens. Cinqüenta e dois anos se passaram e minha alma continua inquieta. Eu sento em cima da perna.

Anibal Pacha Correia

~ por Karine Jansen em Outubro 9, 2009.

Uma resposta to “Podemos conversar e vou lembrando coisas que eu ouvia….por Anibal Pacha, no Líbano é Bacha”

  1. o meu nome e bruno pacha e eu gostaria de saber se este nome e mesmo libanes

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