CARTA DE OLINDA CHARONE QUE APENAS TEM UM SOBRENOME LIBANÊS, MAS NÃO SE SENTE TAL.

Olinda Charone em cena

Olinda Charone em cena

Acho que só estou me dando conta que sou, ou melhor, que tenho um nome libanês agora, quando você me pede para escrever uma carta. Nunca pensei nisso e nem tampouco que sou descendente de libanês. Antes quando alguém me perguntava “de onde vem este Charone?” “ de que lugar é ele, o nome?” Eu dizia que era do meu pai, e que ele era descendente de Libanês, e que eu achava que ele era de lá, mas era o máximo que eu podia responder e não me causava nenhuma curiosidade para saber mais, talvez porque a curiosidade era outra, ou melhor, a necessidade era outra, de ter um pai perto de mim, e não um sobrenome apenas. E este talvez tenha sido o único entrave para eu não procurar saber nada sobre este País, sobre este povo de tão longe. Não me sinto uma libanesa porque fui criada por uma cabocla, longe desse libanês. Não tenho costumes libaneses, não gosto da comida libanesa, não é que não goste, não fui habituada a comer e quando não se é, não se tem. Não tenho curiosidade de conhecer o País, tenho curiosidade de conhecer o meu pai, e que se talvez isso acontecesse eu viesse a me sentir e a gostar dos costumes desse lugar e até sentir vontade de visitar. A única coisa que me faz perceber que tenho alguma característica é o MEU NARIZ, que se é pra te falar e ser sincera eu não gosto dele, queria que meu nariz fosse diferente, um pouco menor, sem estas características que me faz parecer o que eu não quero ser, ou tenha mágoas e abomine todas as características que vem de lá. Tenho muitos chales aqui em casa, saí algumas vezes com uns, mas me sinto ridícula com eles, só tenho vontade de ter na gaveta. Acho que não sei usá-los, mas acho bonitos. Desculpa eu te falar dessa maneira, mas são os meus sentimentos EU SOU UMA DESCEDENTE REVOLTADA, AQUELA QUE É SEM SER, mas a culpa é dele outro descendente que não me deu a mínima. Acho que isso não serve nada pra ti. Bj!

Esta Carta foi um dos maiores desafios para mim, karine jansen, neste trabalho. Pois, a coragem de expor sua história de vida e seus sentimentos é comovente! ao mesmo tempo, penso como será ser um pai Brasileiramente, árabe? certamente, um dos maiores desafios neste encontro-confronto cultural! Pertencer a uma cultura onde a poligamia é regra legal para os homens, para migrar para outro local onde a é vista como crime legal e “safadeza” moral deixou marcas profundas em diferentes descendentes….

Nossa proposta neste trabalho de pesquisa não está na exposição gratuita de fatos e ações pessoais contudo no esforço de compreender as diferenças existentes entre as diversas camadas interpessoais que caracterizaram a integração dos descendentes de libaneses.  hoje, quando os modelos de padrão familiar brasileiro está mais amplo do que o padrão, talvez seja o tempo de alguns de nós rever e reconciliarmos – pacífica e amorosamente- com nossas histórias  famíliares. Pois, como dizem os árabes” laços de sangue, não viram água!” observemos o artigo a seguir:

IDENTIDADE CULTURAL

por  Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira

A identidade cultural é um sistema de representação das relações entre indivíduos e grupos, que envolve o compartilhamento de patrimônios comuns como a língua, a religião, as artes, o trabalho, os esportes, as festas, entre outros. É um processo dinâmico, de construção continuada, que se alimenta de várias fontes no tempo e no espaço.
Como conseqüência do processo de globalização, as identidades culturais não apresentam hoje contornos nítidos e estão inseridas numa dinâmica cultural fluida e móvel.
A globalização é uma nova e intensa configuração do globo, a resultante do novo ciclo de expansão do capitalismo não apenas como modo de produção mas como processo civilizatório de alcance mundial, abrangendo a totalidade do planeta de forma complexa e contraditória. O Estado-nação, símbolo da modernidade, entra em declínio. Como conseqüência, os mapas culturais já não coincidem com as fronteiras nacionais, fato acelerado pela intensificação das redes de comunicação que atingem os sujeitos de forma direta ou indireta. Grandes conceitos que informavam a construção das identidades culturais, como nação, território, povo, comunidade, entre outros, e que lhe davam substância, perderam vigor em favor de conceitos mais flexíveis, relacionais. Segundo Teixeira Coelho, as identidades, que eram achadas ou outorgadas, passaram a ser construídas. As identidades, que eram definitivas, tornaram-se temporáriasi. A diversidade cultural que o mundo apresenta hoje, as múltiplas e flutuantes identidades em processo contínuo de construção, a defesa do fragmentário, das parcialidades e das diferenças, trouxeram, como corolário, uma volatilidade das identidades que se inscrevem em uma outra lógica: da lógica da identidade para a lógica da identificação. Da estabilidade e segurança garantidas pelas identidades rígidas, à impermanência, mutabilidade e fluidez da identificação. Não é mais possível fechar em torno de uma só questão as referências da prática individual e coletiva, e as dimensões em que se situam, constantemente superpõem-se em vários estratos vacilantes, ressalta Tício Escobarii.
O que se impõe hoje, a partir da noção contingente, contextualizada e relacional da identidade, é garantir que a multiplicidade e a diversidade sejam preservadas, que a cultura, como uma longa conversa entre partes distintas, permita que convivam sujeitos dos mais diferentes matizes. Em vez disso, quando a cultura local parece esgarçar-se como conseqüência da globalização, a afirmação de identidades duras parece funcionar, para muitos sujeitos, como elemento apaziguador que busca deter e solidificar a fluidez característica da época atual. Verificam-se, então, manifestações extremadas, em que nacionalismos, fundamentalismos, xenofobias, preconceitos, são ressuscitados e lutas sem fim são travadas em nome da preservação de identidades.
Por outro lado, a defesa da preservação de identidades rígidas, muitas vezes, colide com valores tidos como universais e estabelecidos, que ferem a dignidade humana, como a subordinação da mulher em diferentes culturas, a circuncisão feminina, o cerceamento da liberdade individual, entre outros. O que se aponta aqui é o conflito entre a proteção de identidades e culturas locais e os direitos humanos universais, questão que contrapõe universalistas e relativistas culturais.
A diversidade  e as expressões dessa diversidade devem ser buscadas e garantidas, tendo como norte o fato de que a cultura é sempre dinâmica, móvel. Preservar o diverso ante o impacto avassalador de um mundo globalizado, citando novamente Tício Escobar, é um grande desafio que devemos enfrentar.

Bibliografia

BAUMAN, Zigmunt. Modernidade líquida. RJ: Jorge Zahar, 2001.
COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural.SP: Iluminuras, 1997.
MAFESOLLI, Michel. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996.
SERRA, Mônica Allende (org). Diversidade cultural e desenvolvimento urbano. SP: Iluminuras, 2005.

~ por Karine Jansen em Outubro 10, 2009.

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