Minha Parte Libanesa……….por Dulce Rosa Rocque

Meu pai, Félix Rocque

Meu pai, Félix Rocque

Difícil falar dela pois lembro de ter tido bem poucos contactos com essa realidade.

Dizem que meu pai nasceu dentro do navio que trouxe, do Líbano, meus avós para cá. Este navio estava ancorado em Salinas esperando o “prático”. O sobrenome Rocque deve ser uma corruptela de algum nome libanês que não descobrimos qual ser até hoje. Quem sabe o nome  Roque tenha vindo da :Persia onde  quer dizr :O Elevado, O Alto….

Felix Rocque  era viúvo de uma libanesa, quando conheceu minha mãe. Já tinha quatro filhos e os mais crianças foram morar com ela, ao menos por algum tempo. Depois a “vó Rosa” resolveu que era melhor que crescessem com ela mesma….

O que se conta em família, tanto para começar a falar desse lado da minha família, é que o casamento entre meus pais não aconteceu porque minha avó paterna queria que ele casasse com uma libanesa. Começa, portanto, bem mal a relação entre as duas famílias. Esse fato, porém, evidencia uma realidade entre os imigrantes, fossem eles libaneses, japoneses ou italianos: era melhor que casassem com gente da própria terra…. A família preferia assim e quando isso não acontecia, quem “pagava o pato” eram as crianças que nasciam dessas relações “indesejáveis”.

Nos anos 40 do século passado, ser mãe solteira, no Brasil, era uma coisa terrível. Tuas amigas te evitavam; não podias freqüentar clubes e, muito pior, a Igreja Católica não te aceitava mais e teus filhos não podiam ser batizados. Vários outros absurdos eram praticados, seja com a mãe (solteira) que com seus filhos. Crescer desse jeito te deixa mazelas, com certeza.

Crescemos, os três filhos que ele teve com minha mãe, freqüentando pouco a casa da nossa avó libanesa. Lembro da sua casa  na Frei Gil de Vilanova, quase na Praça da Republica, em frente ao Consulado americano. Construção tipicamente colonial e seus móveis, bem brasileiros: cadeiras de balanço na sala de jantar além de “criados mudos” ao lado delas e no meio uma “escarradeira” de porcelana pintada a mão. Dessas visitas lembro principalmente os “quibes” e as “trouxinhas” que fazia minha “vó Rosa”. Quase não falava conosco quando íamos – raramente – na sua casa. Ficávamos sentados nas cadeiras de balanço e ela ia embora para a cozinha:  por isso talvez me lembre tão bem daquela escarradeira e dos criados mudos. Lembro-me que ficava um tempão olhando-os e me perguntando para que serviam: quem escarrava ali????.

Ele adorava jogar. As suas casas de jogo eram freqüentadas, principalmente, por libaneses que o seguiam nesse  seu vício que o fez jogar fora muito dinheiro (da minha família) e jóias da minha mãe, também. Foi inclusive uma das causas da ruptura da relação com minha mãe: a outra causa foi o seu ser “mulherengo”.

(PS: outro dia a filha de um libanês rico que jogava com meu pai me falou que ao casar – nos anos 50-, recebeu de presente do pai um conjunto de jóias com rubis que ele ganhou no jog do meu paio: eram jóias da minha mãe).

A única palavra em árabe que conhecemos através dele foi: habib. A cultura libanesa na minha vida se  resumia a comida e nada mais. Talvez por ter freqüentado bem pouco sua casa essa realidade não nos tocou de perto. Quando criança, talvez até  a causa das histórias das 1001 noites, das histórias do Rei Farouk e dos casamentos do Reza Palevi, tão noticiados por estas bandas, escolhia sempre nomes árabes, quando brincava de princesa. Narriman foi um deles, além de Sherazade, é lógico.. :

Lembro muito das festas de Nazaré, quando íamos para os teatros dele ver os artistas que trazia. Eram os anos 50.

Ele morre em agosto de 1958. No seu velório foi a única vez que vi minha avó falar árabe. Alias, gritava, chorava e batia a cabeça, desesperada. Lembro que era bonito e elegante.

Meus irmãos por parte de pai já morreram todos. Eu gostava deles.

Concluindo: não noto nada de particular na minha vida em relação a cultura árabe. O que incidiu muito foram os costumes da época: seja brasileiros que libaneses ( alias, de todos os emigrados). Dou um pouco mais de atenção ao que acontece por aquelas bandas por ter esse pouco de sangue libanês. Admiro aquela cultura e gosto muito da sua comida, mas nunca tive curiosidade de ir visitar o Líbano, principalmente porque nem sei bem de que cidade vieram (Trípoli, talvez). Nas minhas andanças cheguei a conhecer países que falam árabe como a Libia, Marrocos e Argelia, mas parei por aí, talvez até a causa da guerra.

 

Karine,
a cultura arabe parece ter bem pouca presença na minha vida. Escrevi porém umas “lembranças” que seguem anexo, juntamente com as únicas fotos que tenho de meu pai.

Encontrei escrito na enciclopédia de meu irmão, que ele -meu pai- escreveu na Folha do Norte artigos chamados de “Pagina Libanesa”, e em 1957/58 artigos sobre a historia libanesa. Quem sabe onde foi parar o arquivo desse jornal.

 

~ por Karine Jansen em Outubro 12, 2009.

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