Uma visita na casa da minha amiga libanesa Oriana Bitar…..por Karine Jansen

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Oriana e o avô Alberto Chücre Miguel Bitar

Oriana e o avô Alberto Chücre Miguel Bitar

 

Tentei muito que Oriana me mandasse uma carta, mas em função de várias mudanças e reformas em seu lar, a carta não foi possível, mas os encontros sim. Freqüento há muitos anos a casa da Ori, como os amigos de teatro se referem. Mas essa visita foi especial! Afinal, muitos dos objetos que sempre vi pela casa, ganhou  um contexto cultural impregnado de uma memória individual e coletiva… Um pedacinho da existência dos Pardauil e dos Bitar… Devo confessar que contei com uma ajudinha especial de Patrícia Gondin que acompanhava tudo atenta, e ajudava a procurar objetos importantes para narrativa familiar.

Oriana do Vale Bitar, possui descendência libanesa pela ascendência paterna e materna. Mas, como todo descendente de terceira geração, guarda com esforço e carinho fragmentos desta história: “Tio Xeden, eu acredito que foi o primeiro a migrar, foi para os Estados Unidos e em seguida para a Amazônia sua intenção era comercializar a borracha. Depois de fixar-se com estrutura mínima, voltou para buscar os irmãos no Líbano” e assim trilhamos um pouquinho do caminho dos Bitar que vieram de Beit-Chabeb-Líbano (tradução: casa do vizinho) para Belém-Brasil (tradução:casa do pão); “Bisavôs paterno Felipe e Rosa tiveram 11 filhos:Miguel, Alberto, Arcelino, Simão, Orlando, Oswaldo, Jean e as mulheres Olinda, Adelaide e Celeste – a lembrança falha um dos nomes-. Vovô Alberto tem quatro filhos: Hilderberto, meu pai, e tios Brahin, tia France e tio Miguel. Papai Hilderberto tem Três filhos, eu Oriana, Murilo e Leonardo. Quando Vovô Alberto morreu eu tinha treze anos, foi em 27 de setembro de 1978, a vovó Hilda morreu em 1988”

Cabe alertar ao leitor desta narrativa  que o objetivo desta pesquisa não é investigar a imigração libanesa em Belém, o objetivo está em compreender como se construiu a identidade cultural entre os descendentes. Observo em rápidas conclusões, que contar e recontar a história desta “viagem” é uma dos aspectos que ligam os descendentes a esta cultura. Neste aspecto, contar a história, narrar é uma prática performática, das mais antigas e tradicionais. Sherazade, portanto é uma imagem-força nesta criação da cultura libanesa em terras paraenses. ´Foi e é uma performance poderosa na construção da identidade dos descendentes de libaneses.

“culturas são mais completamente expressas em performance, e são tornadas conscientes de si mesma nas suas performances rituais e teatrais. Uma performance é declarativa de nossa parcela de humanidade, contudo articula a unicidade de culturas particulares. Conhecemos-nos melhor um ao outro entrando nas performances de um e de outro e aprendendo as suas  gramáticas e vocabulários” Victor Turner Apud Schechner 1982 p 79. The end of humanism. new York. Laj.

 

 Atrás destas lembranças-memórias Oriana relata: “Lembro da casa da vovó, na rua 03 de maio com a av. independência, do outro lado da rua morava tio Oswaldo e tia Vigica e tinha ainda a casa de tia Antonieta. Aos sábados, os tios e tias iam para casa da vovó, inclusive tio Orlando para comer comida árabe. Tinha de tudo! Até hoje, ninguém faz homus como a vovó! E nem picadinho como tia Olinda”…” eu não cozinho a comida árabe, pois é muito trabalhosa, precisa de um certo ritual, mas eu e meu pai freqüentamos os restaurantes árabes, aqui em Belém e em São Paulo! Aqui freqüento o Kafkas.”

Outra imagem que não esqueço é meu avô Alberto Chücre Miguel Bitar rezando o Pai Nosso em francês. Pergunto: Você fala francês? Sim, meu pai me colocou para estudar. O pai e a mãe falam francês! Era a segunda língua no Líbano logo, após a segunda guerra. “Uma coisa que acho libanês é comer fruta, papai e vovô faziam isso. Eu adorava quando comíamos melancia e brincávamos de quem atirava o caroço mais longe…”….”Eu sou muito ligada emocionalmente ao meu Pai Hildeberto….assim como ao meu avô Alberto, o vovô era engenheiro, eu tenho o caderno de desenho dele”….Pergunto eu: você acha que é por isso que gostas de artes visuais? Oriana responde: Não ele fazia desenhos técnicos!” observo os desenhos e concluo: “engraçado, parece arte árabe!” os olhos de Oriana brilham de forma especial, é a memória agindo… e me fal: “ ele desenhava com nanquim tira-linha”

 Folheando seu álbum de nascimento nos deparamos com os registros das jóias que Oriana recebeu ao nascer, os adornos femininos: pulseira de chapa, pulseira (tipo escrava) que ganhou dos avós Alberto e Hilda, broche de ouro, anel de ouro. Rimos juntas tentando descrever como eram as jóias até que ela decide desenhar. Enquanto me fala da avó: “lembro dela com trança para cima, era uma mulher grande, a sala de sua casa era comprida, lembro da cadeira de balanço. Com ela aprendi a comer com pão, quando ele faz a vez do garfo”!

 A vovó Farid Pardauil mora no Rio de Janeiro, e eu adoro visita-la. Ela xinga em árabe! E sabe fazer renda árabe, que não é crochê é nó!. Fomos almoçar, a comida paraense testemunhava que tínhamos vivido a pouco tempo o Círio.

~ por Karine Jansen em Outubro 14, 2009.

2 Respostas to “ Uma visita na casa da minha amiga libanesa Oriana Bitar…..por Karine Jansen”

  1. Prezada Karine Jansen
    Vi o espaço e tomei a liberdade de escrever. Meu nome é Assad Darwich.
    Esta semana me bateu um saudosismo, logo após conhecer mais um libanês, meu irmão de maçonaria. Então ficamos de conversar mais e, quem sabe, no próximo ano dar um pulo no Líbano. E, obviamente, chegar à Beit Chabeb. Falo em nesta cidade porque o seu texto se refere a ela e meu pai veio de lá com 15 anos de idade. E veja só a coincidência: veio junto ou trazido por um Bitar em 1906. Creio que foi o Jean. É o nome que lembro que meu pai falava e que também trabalhou com borracha e castanha (pertencia aos chamados seringalistas) em Altamira no rio Xingu. Fiz faculdade em Belém e lembro onde moravam os Bitar, na 3 de Maio com Independência. Também morei um ano na 3 de Maio, bem próximo, mas nunca tive contato com os Bitar. Bom, já estou me alongando muito. Resolvi escrever, principalmente para lhe dizer que achei ótimo ver alguém falar (escrever) sobre um assunto que só me traz boas recordações. Tenho muitos parentes em Belém mas, há bastante tempo não vou lá, mesmo morando em Manaus (bem perto) onde sou pesquisador do INPA, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Só para me identificar melhor: nasci em Altamira em 1949, sou o mais novo de cinco irmãos da segunda mulher de meu pai. Fiz biomedicina e mestrado e doutorado na área de limnoloiga. É isso aí, já escrevei muito e quero repetir, valeu a pena!
    Abraços,
    Assad.

  2. Ola,Karina.Faz algum tempo ,que tenho vontade de escrever um artigo:historia que nossos avos contavam,pois guardo boas lembranças da minha querida avo maria de lourdes, neta da Luisa Bitar, que morou no casarao da Independencia com a Tres de maio.Do outro lado,no Armazem, meu avo trabalhava com o avo dela, Ela contava, que meu avo mandava os recados pelo chapeu do avo dela, e outras coisas muito engraçadas.Ela estava prometida para um primo, mas se apaixonou pelo meu avo, que era Portugues e casou com ele.Ela contou que sofreu muito nas maos da avo por isso.Ela e eu, costumavamos visitar a ultima prima dela ,a Zenita, que tinha uma filha ,Maria, que tinha dois filhos:Cintia e Cassio.Eu brincava com a Cintia pelo casarao. Depois eles mudaram.Hoje funciona o H.C.Pneus no local. Sempre que passo por la, fico com o coraçao apertado, pois ali, foi construida a historia de vida dela.Meus avos, foram meu porto seguro.O que me faz refletir:Que historia de vida nos estamos construindo?
    Abraços fraternos,
    Linda

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