Acho que libanês em mim é um porto sempre por achar, <uma saudade e uma procura… por Natália Abdul Khalek

 

Meu amado avô libanês, por Natália
Meu amado avô libanês, por Natália

            Sua morte foi o estalo. Faz seis anos comecei a me pensar descendente de libanês. Momento onde as reflexões sobre o passado pulsavam nas falas, no choro. Dias de passar à tarde no hospital. Como sempre ele não conversava muito, mostrava carinho no silêncio. Khalil Anis andava sem barulho no pé, sentar manso, cabeça erguida, inspirava-me respeito. Na doença tomei susto, vendo-o xingar as enfermeiras e enfermeiros em árabe – “rarakleptefé!” assim eu entendia -, antigamente se aborrecia só arregalando os olhos. Lembro das visitas mulheres, quem eram aquelas? De um meu avô que foi embora e e chegou novo nas histórias que passei a escutar.

            Vovô Khalil era uma fortaleza tranquila, uma montanha. Na maior parte do tempo o encontrava ouvindo música árabe em seu toca-fitas, cantava de olhos fechados, dançava com as mãos ou batia palmas. Às vezes na cadeira de balanço próxima à janela, tomando seu whisky. Um dia comentou que as cantoras árabes vão com suas vozes a um lugar desconhecido das ocidentais. Fairuz, vizinha da lua, uma de suas prediletas. Tentou me ensinar a contar em árabe, uahad, tnen, tlet, arbaa, não lembro… Naquele quarto eu sentia uma saudade imaginada daquela terra. Seus amigos libaneses vinham em casa, semelhantes a ele, um tanto estranhos a mim. Na cozinha, tabule, kafta, charuto, hommus, babaganoj, namura, coalhada escorrida, azeitona preta, zatar, azeite, pão careca mesmo, mas sem o miolo… meu avô era uma delícia! Sua alegria era que repetíssemos, era pôr à mesa a quem trouxéssemos em casa. Uma vez acusou-me de comer todas as azeitonas, esbravejava “cho-rom-bo-rom!”; injustiçada, escondi-me embaixo da mesa e só saí quando o vi se recolher, daí ele volta e pergunta: “Passou o soluço?”. Tinha dessas, tinha uma formiga nos dedos a nos dar beliscões de surpresa. Sempre com dinheiro no bolso da camisa, oferecia dez, vinte reais pra comprar um sorvete. Jogávamos baralho na sala, eu e tia Aida, ele passava no corredor, nem bem fitava o jogo, soprava-me a dica certeira! Às seis da tarde se arrumava elegante e eu não via sua volta. Acho, ninguém a percebia.

            Chegasse alguém falando afoito demais, vovô esperava a pessoa acabar, olhava nos olhos e permanecia quieto. Se eu quisesse saber da ‘cultura libanesa’ e da sua história, teria que ter feito as perguntas certas. Meu pai, Luís, o maranhense, quem pescava alguma memória entre seus poucos comentários. Vovô cursou até a quinta série e sabia do mundo de tudo um pouco. Tia Magda lembra de uma época em que sentava na cabeceira da mesa e contava casos. Nas madrugadas de dor compartilhada – vovô já pedia a Deus que o levasse –, a família recordava as provas de força que participou no Acre. Na queda de braço ganhou até trinta grades de cerveja. Seu amigo Houston respondeu a um adversário “Quando ver um libanês, jamais lhe faça um desafio.” No exército inglês, durante a segunda guerra mundial, foi campeão de boxe. Exibia-se carregando uma cadeira de madeira do chão ao céu, pela ponta, com uma só mão. Tem a proeza do cinema Iracema: ele e vó Charife, grávida, foram à inauguração, quando viu a multidão aos empurrões, encostou as duas mãos sobre as colunas da entrada, e fez assim uma barreira até que ela estivesse segura em sua poltrona; e corre a lenda das colunas entortadas pelo ato heróico de Khalil. As mesmas mãos costuraram terno de príncipe. O ofício de alfaiate aprendeu com seu pai, Anis – este não sabem se nasceu na Palestina ou passou um período por lá – dono de uma alfaiataria no Líbano. Vovô não gritava com os filhos e filhas, vovó que ralhava feio, ela passava mais tempo com os nove. Macapá, São Paulo, Rio de Janeiro, ele ia trabalhar. Certa vez foi contratado para achar diamantes no Xingu, mas outro achou primeiro.

            Desde criança, meu “nariz de bruxa” era motivo de piada. Em casa observava os rostos, dava raiva atestar a falta de alternativa, todos são narigudos, teria de ser nariguda para sempre! Depois ainda descobri que o bendito não para de crescer. Nas oficinas de teatro, eu com quatorze, quinze anos, escolheram me chamar pelo sobrenome Abdul. Lá no Líbano, se disser Abdul, não quer dizer nada, a origem é definida pelo complemento, o meu é Khalek. Gostei, cacei uma bandeira do Líbano pelas gavetas do vovô, fiz colagem na capa do caderno. Ele já tinha sido levado. Parei de comer kibe, nenhum era igual. Quis aprender a cozinhar, usar bastante as mãos, sem tantas ferramentas. Comia com pão acompanhando o que fosse. Azeite, alho, limão, segredo perto do coração. Cor, cheiro, gosto daquela serenidade. Presenteava os queridos com saquinhos de zatar, uma jóia em tempero. Meu companheiro atentou: “É como se me trouxesse um pedaço da sua casa”. Meu paladar é meu avô e meu Líbano. Minha fisionomia? Parece até que vario, perguntam “És descendente de indiano? De índio? De chileno?”, poucas vezes enxergam uma ‘brasileira-árabe’. Acho-me mais parecida com meu pai. Ao vestir saia longa, vestidão, lenço, já ouvi: “Você tem uma aura turca”. Acho graça, como se veste uma árabe, turca não, uma libanesa? Ao contrário das minhas tias e minha mãe, não suporto jóias. As mulheres daqui brilham e fazem barulho. Meu pai, se quer falar de nós, traz à conversa o temperamento nervoso das libanesas, bem, que eu saiba ele não conhece nenhuma. Quanto a nós, somos um tanto fervorosas.

            Tio Farid, o filho mais velho, que mora em Belo Horizonte, esqueceu qual a dança das mulheres, diz que a dança do ventre não era. Lembra da Dabik (não sei como é a escrita), uma dança dos homens, um com a mão no ombro do outro, em roda, dando pulinhos. Hoje faço muitas perguntas a este tio, fiquei de ir a sua casa aprender a fazer boas esfihas. Faz tempo combinamos… mas eu vou, eu vou… Ele guarda uma espada que passa de pai para filho, com a qual o bisavô Anis andava em seu cavalo, naquela roupa de druzo. Ninguém se torna druzo, a pessoa nasce, a pessoa é. Nasceu e passou parte da juventude no Líbano, de 1962 a 1968. Conta que em Beirute havia muitos cassinos e corridas de cavalo, nas ruas circulavam carros norte-americanos caríssimos. O Kibe era feito com carne de carneiro. E havia um ritual do pão nas reuniões de família: as mulheres o passavam de mão em mão e o estendiam ao máximo, então era colocado em forno côncavo e assado rapidamente, depois dobrado até ganhar o tamanho de um livro. Mostrou-me a origem árabe de palavras como açúcar, arroz, alfaiate, alcachofra. Sobre o que vi na bolsa da prima Sâmia, o “terço druzo”, não é um terço, é o Masbah, uma forma de passa-tempo ou exercício de concentração, quando se está pensando em negócios, por exemplo, dedilha-se para desanuviar. Para ele nem todo árabe é exímio comerciante, o são os libaneses, descendentes dos fenícios, navegantes. As irmãs do vovô, Linda e Najla, e o irmão, Fouad ainda moram em Beirute, como serão? Farid conserva, do Líbano, uma roupa de criança em seu armário, quero vê-la. Reconheço em meu tio o orgulho árabe de meu avô, jamais ombros caídos. Na tia Magda e na mamãe, o valor à família toda reunida. Libanês em mim é um porto sempre por achar, uma saudade e uma procura.

Natália Abdul Khalek

 

~ por Karine Jansen em Outubro 24, 2009.

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