A essas e tantas outras….Teatro, multiculturalismo e gênero

em cena, Luiza Braga

                                                                                          por Luiza Braga

Averróis é um obstinado. É movido pelas perguntas. O multiculturalismo é o fator instigador, pois a tentativa incessante de Averróis por decifrar e mostrar às outras pessoas o significado das palavras tragédia e comédia, necessariamente, perpassa por compreender uma cultura que não é a sua! A mesma luta que Averróis trava com o contexto social em que está imerso é a luta que todos/as nós travamos todos os dias. E o teatro é um elemento que deve provocar nossa inteligência recalcada de espectador, desenvolver nosso sentido de beleza atrofiado por mil esquemas econômicos, culturais, sociais que nos fazem perder a noção do mundo como único, multifacetado, mas único.

A solidariedade não faz mais parte de nosso vocabulário, assim como a provocação, a arte. A nossa visão limitada nos prende apenas à realidade restrita que nossos olhos conseguem alcançar, não nos dando a dimensão do desafio que temos: construir a unidade a partir do respeito às diferenças, da fraternidade, da justiça e, sobretudo, da igualdade. Meu trabalho, como Averróis em sua busca, se desenvolveu a partir de uma tentativa, ainda inacabada, de compreensão desse complexo cultural que presenciamos na dita “pós-modernidade”, a partir da perspectiva do papel e da performance social desenvolvida pelas mulheres, tendo como lócus as sociedades árabes. E, fundamentalmente, percebendo como a opressão de gênero se manifesta da maneiras distintas, mas sempre presente, nas diversas sociedades.

Partindo destes elementos “A busca de Averróis” para mim foi uma tentativa de utilizar a arte, o teatro e as artes plásticas, como uma experiência de resignificação do mundo e o mundo como experiência estética. A burca construída de miriti, para além da representação da vestimenta que as mulheres árabes são obrigadas a utilizar, para mim funcionou como um signo que demonstrou a angústia e o sentimento de impotência diante de uma realidade que não oferece às mulheres o mínimo de recursos e condições para transformação.

Uma sociedade desigual por natureza, que possui elementos legitimadores que vão desde a religião até a forma de Estado, colocando a mulher sempre num papel de submissão. Então, a burca de miriti que surgiu como uma tentativa de crítica ao papel político da mulher árabe, com o decorrer do processo, passa ser compreendida por mim como um elemento de conexão e convergência ganhando, assim, outros elementos: tecidos, retalhos, texturas diferencias… Na tentativa de demonstrar que somos diferentes, de culturas diferentes, classes econômicas distintas, religiões diferentes, mas a solidariedade feminista nos une! Confesso que foi muito difícil transitar, ainda que por pouco tempo, pelo universo árabe e mais ainda, ter que descobrir o meu conceito de teatro para a partir dele desenvolver uma performance capaz de ir às ruas com elementos árabes e dizer ás pessoas em que teatro eu acredito! Acredito num teatro instigador, crítico, questionador, revolucionário na forma e no conteúdo. Acredito no teatro que transforma a realidade, as pessoas, que as faz pensar a partir da sua sensibilidade. Um teatro desafiador para quem atua e para quem assisti. Compreendi um pouco melhor o universo das mulheres árabes e a angústia de viver para servir, entretanto identificando, fundamentalmente, que a diferença entre “elas” e “nós” não é grande, pois a burca que todas nós, mulheres, somos obrigadas a usar todos os dias pode não ser de miriti ou cobrir todo o nosso corpo, mas nos aprisiona e nos oprimi. Esse trabalho se desenvolveu à essas e tantas outras que nunca deixaram de sonhar e lutar!

~ por Karine Jansen em Novembro 21, 2009.

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