Dois Irmãos e Brasileiramente, árabes! um olhar sobre a história e a cultura libanesa na Amazônia por Suani Trindade

DOIS IRMÃOS e BRASILEIRAMENTE, ÁRABES! Um olhar sobre a história e cultura libanesa na Amazônia

Suani Trindade CORREA (UFPA/CAPES)

José Guilherme dos Santos FERNANDES (orientador)

RESUMO: Partindo do pressuposto que a literatura é uma produção cultural, este trabalho apresentado à disciplina Estudos da Literatura da Amazônia, sob a orientação do Prof. Dr. José Guilherme dos Santos Fernandes, irá percorrer o universo da obra literária Dois Irmãos, do escritor amazonense Milton Hatoum, na busca de explorar os aspectos relacionados à identidade, cultura, história, relacionando-o com a pesquisa Brasileiramente, árabes: um estudo das práticas performáticas dos imigrantes libaneses em Belém do Pará, desenvolvida pela Profa. Dra. Karine Jansen. O intuito é possibilitar um diálogo, uma conversa com esta obra literária e a pesquisa desenvolvida, para que possamos ter um panorama sobre a história e cultura libanesa na Amazônia, além da compreensão da realidade amazônica mediante a produção literária.

Palavras-chave: Dois Irmãos, Brasileiramente, árabes!, cultura, história, identidade

A internet, os libaneses e eu

Todos já devem saber que sou uma aspirante a “ratinha” da Internet, isto é, alguém que fuça o ciberespaço, o “novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica […] o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo.” (LÉVY, p.17). Navego nesse universo atrás de novas informações, curiosidades, novos blogs criados etc. Neste meu caminhar ciberespacial, quase todos os dias, visito a Rede de Teatro da Floresta , o “Orkut” dos artistas e como tal, não poderia estar de fora. Lá, tenho minha página reservada, ao alcance de todos.

Certo dia, ou noite, pois a memória não está tão precisa agora, feito ratinha, vi uma postagem de Karine Jansen intitulada “Carta de Olinda Charone que apenas tem um sobrenome libanês, mas não se sente tal”. Essa carta é um depoimento da professora Olinda, para o projeto de Karine sobre os imigrantes libaneses em Belém do Pará. Abaixo, a carta-depoimento:

Acho que só estou me dando conta que sou, ou melhor, que tenho um nome libanês agora, quando você me pede para escrever uma carta. Nunca pensei nisso e nem tampouco que sou descendente de libanês. Antes quando alguém me perguntava “de onde vem este Charone?” “ de que lugar é ele, o nome?” Eu dizia que era do meu pai, e que ele era descendente de Libanês, e que eu achava que ele era de lá, mas era o máximo que eu podia responder e não me causava nenhuma curiosidade para saber mais, talvez porque a curiosidade era outra, ou melhor, a necessidade era outra, de ter um pai perto de mim, e não um sobrenome apenas. E este talvez tenha sido o único entrave para eu não procurar saber nada sobre este País, sobre este povo de tão longe. Não me sinto uma libanesa porque fui criada por uma cabocla, longe desse libanês. Não tenho costumes libaneses, não gosto da comida libanesa, não é que não goste, não fui habituada a comer e quando não se é, não se tem. Não tenho curiosidade de conhecer o País, tenho curiosidade de conhecer o meu pai, e que se talvez isso acontecesse eu viesse a me sentir e a gostar dos costumes desse lugar e até sentir vontade de visitar. A única coisa que me faz perceber que tenho alguma característica é o MEU NARIZ, que se é pra te falar e ser sincera eu não gosto dele, queria que meu nariz fosse diferente, um pouco menor, sem estas características que me faz parecer o que eu não quero ser, ou tenha mágoas e abomine todas as características que vem de lá. Tenho muitos chales aqui em casa, saí algumas vezes com uns, mas me sinto ridícula com eles, só tenho vontade de ter na gaveta. Acho que não sei usá-los, mas acho bonitos. Desculpa eu te falar dessa maneira, mas são os meus sentimentos EU SOU UMA DESCEDENTE REVOLTADA, AQUELA QUE É SEM SER, mas a culpa é dele outro descendente que não me deu a mínima. Acho que isso não serve nada pra ti. Bj! (CHARONE, 2009)

Ao ler o depoimento, imediatamente fui levada a pensar sobre a obra que lia naquele momento: Dois Irmãos, de Milton Hatoum. A obra publicada em 2000, conta a história conturbada dos irmãos, gêmeos, Omar e Yaqub, de descendência árabe, libanesa, cujos traços identitários oscilam entre a árabe e a brasileira, respectivamente.

Assim, resolvi iniciar um estudo com essa obra, considerando os aspectos relacionados à identidade, identificação, cultura e história, tanto do plano ficcional quanto da própria obra em questão. Além disso, proponho uma conversa entre o romance de Hatoum e a pesquisa de Karine. Mas, de antemão, gostaria de informar que é um estudo inicial, não definitivo, não redutivo.

A pesquisa; o romance

Brasileiramente, árabes! é uma pesquisa desenvolvida na Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, pelo grupo de pesquisa PACA – Pesquisadores em Artes Cênicas da Amazônia, contando com os seguintes pesquisadores e profissionais de teatro da cidade de Belém: Karine Jansen, Larissa Latif, Maridete Daibes, Marckson Moraes, Cleice Maciel (bolsista-CNPQ), Carlos Vera Cruz (bolsista-CNPQ), Dário Jaime, Wlad Lima e Olinda Charone.

O principal objetivo da pesquisa é construir uma cartografia sobre as práticas performáticas dos descendentes de libaneses da cidade de Belém; investigar em que aspectos, suas práticas performáticas estruturam ou compõem a identidade desses libaneses-amazonicos-belemenses.

O grupo propôs essa pesquisa “por sua vivência cotidiana numa dimensão estética amazônica hibridizada pelos comportamentos e manifestações culturais oriundos de diferentes povos – especificamente nesse projeto, o povo Árabe – construtores da esfera imaginária da cidade de Belém do Pará.” (JANSEN, 2009). O desejo dos pesquisadores foi alimentado pela observação e registro de relatos, sobre a atuação libanesa na Amazônia, a sua influência no comércio local – seja em pequenos comércios familiares ou nos tradicionalmente nomeados de “barcos de regatão” – na arquitetura, língua, costumes, culinária etc.

Assim teremos um estudo onde o cerne será a cultura, já que nós somos produtos dela e de suas transformações, como comenta Iser:

[Os antropólogos] Consideram a cultura uma resposta a desafios e essa resposta uma revelação daquilo que os homens são. Essa dupla-face da cultura enquanto produto e exteriorização de manifestações humanas repercute nos próprios homens, pois são moldados por aquilo que exteriorizam, isto é, são ‘artefatos culturais’, na formulação de Geertz.

Todas as informações, relatos, fotos, podem ser encontradas no blog da pesquisa: http://www.brasileiramentearabe.wordpress.com.

Dois Irmãos é o romance de Milton Hatoum que narra a conturbada trajetória de Yaqub e Omar, irmãos-gêmeos. Mostra um drama de uma família, habitante da cidade de Manaus, e que é o retrato de uma gradativa desolação do homem, perdido de si mesmo e imerso em um crescente individualismo. Além disso, a figura de Zana é muito forte, cuja presença matriarcal impera sobre toda a família.

O romance é narrado pelas lembranças de Nael e de certa maneira, por Domingas, sua mãe, e Halim, pais dos gêmeos, personagens que “emprestam” também suas reminiscências ao narrador o qual une os pedaços dilacerados de um tempo e de um espaço para assim construir o enredo da obra. Assim, teremos a memória como um traço característico na narrativa.

Talvez por esquecimento, ele [Halim] omitiu algumas cenas esquisitas, mas a memória inventa, mesmo quando quer ser fiel ao passado. Certa vez tentei fisgar-lhe uma lembrança: não recitava os versos de Abbas antes de namorar? Ele me olhou, bem dentro dos olhos, e a cabeça se voltou para o quintal, o olhar na seringueira, a árvore velha, meio morta. E só silêncio. Perdido no passado, sua memória rondava a tarde distante em que o vi recitar os gazais de Abbas. (Dois Irmãos, p.67)

Através desses objetos, terei aqui uma versão, certo olhar sobre um determinado momento da história, pois “articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.” (BENJAMIM, p.224). Pois a Literatura não está procurando uma verdade, mas sim uma possibilidade.

Contudo, mesmo não almejando uma verdade absoluta, “para Geertz, ainda que inventada, as ficções não são inverídicas, nem meras construções do tipo ‘como se’, porque dizem respeito aos seres humanos e ao habitat que ‘essas criaturas inacabadas’ estão sempre criando.” (ISER, p. 156). Logo, um texto narrativo deve ser encarado como uma representação da realidade, mas não deverá significar algo dado, mas sim, compreendida como se fosse algo dado.

A imigração árabe no Brasil

A imigração árabe no Brasil aconteceu de forma distinta das imigrações japonesas e européias, pois estas foram resultados de uma política governamental de cunho econômico. Os imigrantes árabes, especialmente os libaneses, desembarcam no Brasil, por volta do final do século XIX e início do século XX, pois estavam fugindo das invasões que ocorreram em seu país. A primeira invasão foi a turca, seguindo das francesa e inglesa. Portanto, a imigração ocorreu por motivos políticos.

Os imigrantes do Líbano e da Assíria, ao chegarem ao Brasil, tinham seus passaportes carimbados como Turco, pela imigração. Isto ocorria pelo fato desses Estados fazerem parte, legalmente, do Império Otomano. Tal fato histórico é citado no romance, em um momento que o narrador rememora as lembranças de Halim, quando este fala que conversava com sua esposa, Zana, sobre a infância dela na cidade de Biblos:

Deitados na rede, conversavam sobre Galib, a infância de Zana em Biblos, interrompida aos seis anos, quando ela e o pai embarcaram para o Brasil. O pai a levava para banhar-se no Mediterrâneo, depois caminhavam juntos pelas aldeias, eles e um médico formado em Atenas, o único doutor de Biblos; visitavam amigos e conhecidos, cristãos intimidados e mesmo perseguidos pelos otomanos. (p.47)

Há dados que mostram que a cidade de Belém possui hoje cerca de 25.000 descendentes de libaneses, estimativa projetada pelo pesquisador Sr. Zaidan, afirmando ainda que o número possa ser ainda maior, visto que muitos descendentes tiveram seus nomes árabes excluídos por vontade própria, por questões com a imigração, ou mesmo por erro de grafia nos cartórios. (JANSEN, 2009)

O termo “fé em Deus e pé na tábua” dito pelos imigrantes ao saírem do navio, traduz a vontade e a crença no Brasil como lugar de reconstrução de uma nova vida, em busca da “nova Andaluzia”, referência a cidade espanhola. Logo, teremos uma Amazônia com fortes aspectos culturais deste povo.

Mas afinal de contas, o que é ser naturalmente, libanês?

Na pesquisa, há relato de uma senhora de nome Lucy, que explica sobre os aspectos legais da identidade libanesa, baseados no princípio jus sanguinis: “Para nós, ser Libanês é ter pai e mãe libaneses, é o sangue puro libanês que garante a cidadania libanesa.”

Tal princípio fez com que as primeiras famílias de imigrantes quisessem que seus filhos casassem com libaneses. D. Lucy continua e entrevista dizendo o seguinte: “No Brasil, casa-se por amor, no Líbano os casamentos são contratos que envolvem as famílias”. Indo em direção a obra literária, o que é apontado por Hatoum vai ao desencontro das palavras de D. Lucy, já que Halim e Zana se casam apaixonados um pelo outro, ele muito mais. Há uma conquista por parte do pretendente, quando este ler os gazais de Abbas a ela. Assim, o amor, o desejo, a paixão, foram o mote para o enlace matrimonial dos dois personagens.

‘Lindos poemas’, elogiou Galib. ‘Uma mulher sentiria essas palavras na carne. ’ (p.17)

Ele deu três passos na direção de Zana, aprumou o corpo e começou a declamar os gazais, um por um, a voz firme, grave e melodiosa, as mãos em gestos de enlevo. Não parou, não pôde parar de declamar, a timidez vencida pela torrente da paixão, pelo ardor que irrompe subitamente. […] Ninguém o molestou, nenhuma voz surgiu naquele momento. Então ele se retirou do Biblos. E dois meses depois voltou como esposo de Zana. (p.39)

Há um ponto aí que gostaria de salientar: Halim e Zana são libaneses que moram no Manaus. Por isso o casamento entre eles não foi um contrato? Se estivessem no Líbano, seria diferente? Segundo o princípio jus sanguinis, esses personagens são puramente libaneses. Zana nasceu Biblos, tendo o pai e mãe libaneses. Com relação a Halim, não há indícios no texto que aponte tal descendência, mas podemos pensar que é, pelo próprio comportamento descrito na obra ficcional.

O que é perceptível na obra como um todo, é que há alteração de alguns valores e costumes libaneses, ou nas palavras de Rama (2007), ocorre o processo de transculturação, que seria a tríade aculturação (dominado) + desculturação (dominante) = neoculturação (nova cultura). No romance, há um entrelaçamento e um afastamento entre a cultura árabe e a cultura brasileira, pois muito das ações descritas no romance, apontam para tal questão. Em vários momentos na obra, somos levados a pensar que esses libaneses são mais brasileiros e que, por vezes, há certa negação, não total, de sua cultura de origem, como no momento em que Yaqub volta do Líbano, após passar cinco anos:

Meu filho vai voltar um matuto, um pastor, um ra’í. Vai esquecer o português. (p.12)

Zana não queria que o filho fosse para lá, o que nos leva a imaginar que, talvez, ela se sinta mais brasileira do que libanesa. Mas talvez o seja, pois ela chegou ao Brasil com seis anos de idade. Era uma criança e seus costumes foram sendo “alterados”, “complementados” pelo contato com uma terra diferente. Segundo Jansen (2009), quando estamos em uma terra distante, “diferente em tantos aspectos, como garantir que esses valores pudessem ser repassados aos descendentes? Contudo, mesmo seguindo os costumes libaneses, a vida, o lugar surpreendia e de alguma maneira alterava os costumes.”

Ela continua, afirmando que,

Nesta interação e alteração de valores surgiu um termo comum entre os descendentes de libaneses -Libanês da primeira geração- Mas, afinal, o que seria isso? Responde Marlene: ‘São os filhos de imigrantes nascido em terras brasileiras, tem pai e mãe libaneses, criados com costumes libaneses’. […] E assim, descobrimos que além da legalidade, entre a comunidade de descendentes libaneses existe e existiram práticas e comportamentos que foram com o tempo, criando diversas formas de identificação com a cultura e a identidade libanesa.

Neste quadro, temos as figuras dos irmãos-gêmeos Yaqub e Omar, libaneses da primeira geração. Mas, que a meu ver, não transparecem personagens criados com verdadeiros costumes libaneses. Para mim há uma oposição cultura árabe x cultura brasileira, onde Yaqub seria a representação da primeira e Omar da segunda.

“Apreensivo, ele se aproximou do moço, os dois se entreolharam e ele, o filho, perguntou: ‘Baba?’. E depois os quatro beijos no rosto, o abraço demorado, as saudações em árabe.” (p.11)

“Yaqub, que perdera alguns anos de escola no Líbano, era um varapau numa sala de baixotes. Zana temia que ele mijasse no pátio do colégio, comesse com as mãos no refeitório ou matasse um cabrito e o trouxesse para casa. Nada disso aconteceu. Era tímido, e talvez por isso passasse por covarde. Tinha vergonha de falar: trocava o pê pelo bê ( Não Bosso, babai!Buxa vida!), e era alvo de chacota dos colegas e de certos mestres que o tinham como uma rapaz rude, esquisito: vaso mal moldado. […] Ali, trancado no quarto, ele varava noites estudando a gramática portuguesa; repetia mil vezes as palavras mal pronunciadas: atonito, em vez de atônito. A acentuação tônica…um drama e tanto.” (p.24-25)

“Omar mal percebia o vulto arqueado sob o alpendre, Ia direto ao banheiro, provocava golfadas a bebedeira da noite, cambaleava ao tentar subir a escada.” (p.26)

Há uma quebra, uma ruptura de valores, os quais os personagens representam o espelho de um “jogo” cultural que vivemos, onde as negociações estão sempre acontecendo. Como aceitar uma nova cultura? Eu preciso, de fato, aceitá-la? E como aceitar o outro, aparentemente tão diferente de mim? Porém, em Dois Irmãos, a relação dos irmãos-gêmeos não tem espaço para a negociação.

Yaqub negou abrigo ao irmão. Escreveu á mãe que podia alugar um quarto numa pensão para Omar e matriculá-lo num colégio particular. Podia enviar notícias sobre a vida dele em São Paulo, mas não ia permitir que o irmão dormisse sob seu teto. ‘Que ele encontre o caminho dele, mas longe de mim, muito longe da minha seara.’ ( p.78)

Então eu o avistei: mais alto que a cerca, o corpo crescendo, se agigantando, a mão direita fechada que nem martelo, o olhar alucinado no rosto irado. Arfava, apressando o passo. Quando gritei, Omar deu um salto, ergueu a rede e começou a socar Yaqub no rosto, nas costas, no corpo todo. Corri para cima do Caçula, tentando segurá-lo. Ele chutava e esmurrava o irmão, xingando-o de traidor, de covarde. (p.175)

O que Milton Hatoum me coloca, ao ler seu romance, é que, além de um drama de família de libaneses, o romance é, antes de tudo, um drama do homem, com seus conflitos, que segundo Carpentier (2003), seria o homem barroco que ora se apresenta em equilíbrio ora em desequilíbrio.

Além disso, temos que perceber e entender a obra dentro de sua cultura. E a cultura amazônica é também esta, de imigrantes e descendentes libaneses, que “incorporaram” nossos costumes e que fizeram que “incorporássemos” os deles. É um vai-vem, uma mão de via-dupla. Isto ficou bem claro ao conhecer a pesquisa, pois percebi que a cultura árabe está tão presente de nós mais do imaginava. E nesse caminhar segue também a literatura que, sendo da Amazônia, irá representar tais acontecimentos, pois Amazônia não apresenta só rios, ribeirinhos, floresta, ela também é urbana, é árabe.

Voltando a pesquisa, tem-se a informação que estes descendentes da primeira geração, hoje possuem a autoridade no repasse dos valores mais caros aos primeiros imigrantes. A eles cabem os segredos da cozinha árabe, as fotos de família, as histórias de famílias com as datas e nomes corretos, os almoços com Narguilé , enfim, as lembranças de um lugar doce chamado, Líbano. Destaquei as últimas palavras para contrapor com um trecho que não parece muito saudosista e alegre ao se falar da cidade libanesa. Nesse trecho, o jovem Nael narra uma situação um tanto incomôda que paira por causa de uma pergunta que o personagem Talib fez a Yaqub:

Foi então que aconteceu o inesperado: Talib, voz grossa e troante, triscou no assunto:

‘Não sentes saudades do Líbano?’

Yaqub ficou pálido e demorou a responder: Não respondeu, perguntou:

‘Que Líbano?’

Halim tomou mais um gole de café, franziu a testa, olhou sério para o filho. Zana mordeu os lábios, Rânia seguiu com os olhos, até encontrar o japiim-vermelho que piava num galho da seringueira, perto de mim.

‘Por enquanto, só há um Líbano’, respondeu Talib. ‘Quer dizer, há muitos, e aqui dentro cabe um.’ Ele apontou para o coração.

[…]

‘Não morei no Líbano, seu Talib.’ A voz começou mansa e monótona, mas prometia subir de tom. E subiu tanto que as palavras seguintes assustaram: ‘Me mandaram para uma aldeia no sul, e o tempo que passei lá, esqueci. É isso mesmo, já esqueci quase tudo: a aldeia, as pessoas, o nome da aldeia e o nome dos parentes. Só não esqueci a língua…’. (p.88-89)

Entretanto, há outro trecho representativo do que seria esse doce Líbano. Galib, pai de Zana, depois do casamento da filha, retornaria ao Líbano e com amor e alegria não conseguia se conter de tanta emoção ao voltar à pátria:

Quando voltaram ao Biblos, Zana sugeriu ao pai que viajasse para o Líbano, revisse os parentes, a terra, tudo. Era o que Galib queria ouvir. E partiu a bordo do Hildebrand, um colosso de navio que tantos imigrantes trouxe para a Amazônia. Galib, o viúvo.

[…]

Ele preparou e serviu o último almoço: a festa de um homem que regressa à pátria. Já sonhava com o Mediterrâneo, com o país do mar e das montanhas. Sonhava com os Cedros, seu lugar. (p.42)

Gastronomia e o Comércio

Os libaneses, assim como os sírios e judeus marroquinos vieram para o norte fazer “a América”, uma outra América. Muitos vieram na tentativa de conseguir o ouro, mas como não conseguiram, se estabeleceram na Amazônia como mascates. Segundo Marlene Abdelnor, proprietária do Kafta’s, em entrevista cedida a Cleice Maciel ,

Entre morrer lá, a melhor saída era essa, não é que eles estavam negando sua pátria eles estavam querendo sobreviver, minha mãe veio com 9 anos e ela não era da Síria era de Damasco e escolheram o Brasil, Amazônia e Belém por que os Libaneses sempre gostaram de ouro… lá chegou a noticia de que aqui tinha muito ouro eles vieram conhecer o ouro… e onde tinha mais facilidade de possuí-lo era em Belém do Pára… nem todos encontraram ou conheceram….

[…]

…aí vieram ser mascates, isso eles sabem fazer muito bem, aqueles que já tinham o comércio na sua tradição… O mascate é aquele que bate de porta em porta e viaja pelo interior para vender, também conhecido como caixeiro Viajante.

Marlene Abdelnor é filha de libaneses que chegaram ao Brasil por volta de 1930. Maciel descreve que para Marlene a maior dificuldade de adaptação encontrada por sua família foi a alimentação e o clima, por serem acostumados ao país de clima frio de cidade montanhosa, até que conseguiram se adaptar a carne de boi, já que aqui em Belém a carne de carneiro não era fortemente consumida.

Tiveram que plantar em casa suas verduras e legumes para alimentar a família. Seus pais ensinaram a cozinhar, os dois conheciam a culinária árabe: ‘…a Vóvó morou 15 anos em casa, sabia fazer a comida árabe, trouxe de tudo desde o pilão para bater a carne do Kibe …naquela época não tinha moedor. Na minha casa era tradição fazer diariamente comida árabe tanto é que já vim comer feijoada depois de grande, meu pai só comia comida fresca, nada de salgado ou enlatado’. (MACIEL, 2009)

O que é retratado em Dois Irmãos, com relação à culinária, é a incorporação dos hábitos alimentares amazônicos; a adaptação dos libaneses a gastronomia local. Abaixo, excertos do romance que representam tal fato:

“Estava atento a mãe, que só tinha olhos para o viajante. Halim ainda estava no quarto, Domingas arrumava na mala pacotes de farinha e mantas de pirarucu seco.” (p.33-34)

“Por volta de 1914, Galib inaugurou o restaurante Biblos no térreo da casa. […] No Mercado Municipal, escolhia uma pescada, um tucunaré ou um matrinxã, recheava-o com farofa e azeitonas, assava-o no forno de lenha e servia-o com molho de gergelim.” (p.36)

Mas ainda há presença dos hábitos libaneses:

[Halim] tirava do bolso a garrafinha de arak. (p.37)

Com relação ao comércio, já foi citado que muitos imigrantes vieram para o Brasil e se tornaram mascates. Assim como no relato de D. Abdelnor, o narrador do romance descreve como era tal profissão, exercida por Halim:

Halim havia melhorado de vida nos anos pós-guerra. Vendia de tudo um pouco aos moradores dos Educandos, um dos bairros mais populosos de Manaus, que crescera muito com a chegada dos soldados da borracha, vindos dos rios mais distantes da Amazônia. […] Manaus cresceu assim: no tumulto de quem chega primeiro. Desse tumulto participava Halim, que vendia coisas antes de qualquer um. (p.32)

As seis da manhã já estava vendendo seus badulaques nas ruas e praças de Manaus, nas estações e mesmo dentro dos bondes; só parava de mascatear por volta das oito da noite; depois passava no Café Polar, antes de voltar para o quarto da Pensão do Oriente. (p.38)

Segundo Carlos Vera Cruz , o comércio foi uma das formas de adaptação mais utilizadas pelos emigrantes libaneses em todo o mundo e no Pará não foi diferente. Os mascates foram a primeira expressão dessa atividade, que através de mímicas, devido à falta de intimidade com a língua local, vendiam suas miudezas. Essas “mímicas” já eram uma expressão performática do imigrante dentro do comércio local.

A prática de venda, “a mimicada”, pode ser enquadrada no conceito de restauração do comportamento de Richard Schechner , por originar-se de práticas de venda ancestrais da cultura libanesa, transmitidas de geração em geração e restauradas de acordo com a região em que se encontram.

Devido ao espírito empreendedor, outro traço marcante do imigrante, a “Caixa do Mascate”, tábua de salvação dos recém-chegados, ao longo dos anos, transforma-se nas primeiras firmas de imigrantes libaneses no estado do Pará (registros da Junta Comercial do Estado entre 1880 e 1915). E seus desdobramentos podem ser observados até hoje no comércio de Belém. (CRUZ, 2009)

Observa-se também que é uma prática que passa de geração em geração, fato esse apontado na obra pela personagem Rânia, filha de Zana e de Halim, que assume o comércio do pai:

O que ele esperava de Omar, veio de Rânia, e da expectativa invertida nasceu uma águia nos negócios. Em pouco tempo, Rânia começou a vender, comprar e trocar mercadorias. Conheceu os regatões mais poderosos e, sem sair de Manaus, sem mesmo sair da rua dos Barés, soube quem vendia roupa aos povoados mais distantes. (p.70)

Considerações finais

Muito foi comentado a respeito da hibridização cultural, se assim posso me referir, que o romance Dois Irmãos apresenta: temos de um lado a cultura árabe e do outro a cultura brasileira. O que se buscou aqui, nesta espécie de “ensaio”, foi salientar o contato entre essas culturas, que se apresentam de forma conflitante. Não me preocupei em saber sobre a descendência, biografia do autor do romance, pois “basta o narrador viver e conviver, através da narração, com a realidade anunciada. […] Pouco importa a certidão de nascimento do autor porque sua ascendência, seu lugar de enunciação, se objetiva no modo de sua narração.” (FERNANDES, p.115).

Por outro lado, fiz uma relação entre o romance e pesquisa Brasileiramente, árabes! pela importância que acredito que a mesma tenha, tendo como escopo os libaneses em Belém do Pará. Como consequência, o intuito de meu trabalho era apresentar uma Amazônia multicultural, complexa, mestiça, entendendo também que “literatura é uma produção cultural, originada pela relação do homem com o meio e com a paisagem que ele produz.” (idem, p.114), fugindo do ideal de uma Amazônia exótica, imagem tão vendida e vista pelos estrangeiros. E assim termino, com um excerto do romance:

O Biblos foi um ponto de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus marroquinos […]. Falavam português misturado com árabe, francês e espanhol, e dessa algaravia surgiam histórias que se cruzavam, vidas em trânsito, um vaivém de vozes que contavam um pouco de tudo. (p.36)

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, arte e política; ensaios sobre literatura e história da cultura. 7ª ed.São Paulo: Brasiliense, 1994.

CARPENTIER, Alejo. Lo barroco y lo real maravilhoso. In: Ensayos selectos. Buenos Aires: Ediciones Corregidor, 2003.

CRUZ, Carlos Vera. A terra de Vera Cruz. Disponível em: http://terradeveracruz.blogspot.com/. Acesso em: 19 de dezembro de 2009.

FERNANDES, José Guilherme. Literatura brasileira de expressão amazônica, literatura da Amazônia ou literatura amazônica?. In: Graphos. Revista de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba. Ano VI, n. 2/1, João Pessoa, 2004.

HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Companhia da Letras, 2006.

ISER, Wofgang. O que é antropologia literária?. In: Teoria da ficção; indagações à obra de Wolfgang Iser. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1999.

JANSEN, Karine. Brasileiramente, árabes! Disponível em: https://brasileiramentearabe.wordpress.com/. Acesso em: dezembro de 2009.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

MACIEL, Cleice. Um pouquinho do Líbano para você. Disponível em: http://blig.ig.com.br/danasegastronomiaarabe/. Acesso em: dezembro de 2009.

RAMA, Angel. Transculturación narrativa em América Latina. Buenos Aires: Ediciones El Andariego, 2007.

~ por Karine Jansen em Dezembro 27, 2009.

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