Etnodramaturgia, um olhar de Karla Pessoa

Maridete Daibes, em cena.

A etnodramaturgia de Brasileiramente Árabe vem sendo construída a partir das cartas enviadas pelos descendentes de libaneses no Pará ao blog da pesquisa da professora Karine Jansen. Ressalta-se que “etnodramaturgia é uma maneira de compor a cena dramática no diálogo direto com determinados grupos culturais, em que o objetivo da ação dramática está em descrever para o espectador o contexto destes grupos imersos em uma teia de significados individuais e coletivos em um determinado tempo histórico”. Portanto, nessas cartas Karine procurou identificar a simbologia dos elementos referentes à cultura árabe e como esses mesmos elementos dialogam com o contexto cultural de nossa cidade. Dessa forma, as cartas são vistas como documento de identidade desse povo. A carta, aliás, sempre foi algo relevante na vida dos descendentes de libaneses no Pará, pois na época da imigração, era o único meio de comunicação entre as famílias. Enviar ou receber uma carta era algo extraordinário, como percebemos na seguinte passagem da carta de Lene Menezes: “Então como meu avô era analfabeto, resolveu ensinar a língua libanesa para meu tio Elson(Soldado da Aeronáutica), onde esse meu tio passou a escrever as cartas para meu avô se comunicar com seus parentes que ficaram em Beirute. Era de costume, meu tio Elson responder as cartas à noite quando chegava do trabalho. Já meu avô, ao receber as correspondências de sua terra,reunia a noite na calçada com seus vizinhos também libaneses: Abrahão e Jamil e assim meu avô contava aos dois sobre cada carta recebida.” Tendo como ponto de partida os dados das cartas, as cenas do espetáculo revelam sobre diferentes ângulos a identidade dos descendentes e revelam, sobretudo, essa Belém brasileiramente árabe! Como por exemplo, a partir das memórias de infância da atriz Maridete Daibes que estão ligadas à comida libanesa, vejamos: “Eu só vim me perceber descendente de libanês quando eu comecei a ir para os almoços na casa da tia Sali e lá tinha tanta comida diferente! Eram tantos cheiros e temperos que só então eu pude perceber que a minha família era, de fato, diferente.” Percebemos que Maridete, ao dizer esse texto em cena, revive suas sensações da infância e ao mesmo tempo nos transporta, enquanto espectadores, para o universo da culinária árabe. Nos faz até mesmo sentir os cheiros e nos deixa desejando os sabores dessa comida. Outro relato interessante e que faz um contraponto com a fala de Maridete, está na carta de Olinda Charone que “não se reconhece” ou “não se aceita” enquanto descendente de libanês. Como podemos notar na fala interpretada pela atriz Natália: “ Eu não gosto dessas comidas não. Acho que é porque não fui habituada a comer, sabe? Eu só vim me dá conta que eu era descendente de libanês quando vocês me pediram pra escrever essa carta. Pra falar a verdade, a única coisa que eu tenho de libanês é o meu nariz e pra ser sincera, eu não gosto dele não!”. Esta fala, a princípio, revela um certo descaso de Olinda aos costumes libaneses, no entanto, ao final do texto a atriz Natália lança mão do recurso da ironia e transmite de forma cômica o dado presente na carta de Olinda referente ao traço físico que não pode ser escondido, ou seja, o fato de ser descendente de libanês está no corpo, está literalmente estampado em seu rosto.

~ por Karine Jansen em Março 14, 2010.

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