Naturalmente, Libanês!


tatuagem árabe, uma marca corporal!

tatuagem árabe, uma marca corporal!

Ser brasileira para mim? Ah, é ter nascido neste solo. Este é meu direito garantido constitucionalmente! Esta lá, inscrito em todos meus documentos: carteira de trabalho, certidão de nascimento, identidade, titulo de eleitor e outros…  Esse fato comum aos brasileiros estendeu aos descendentes de libaneses a dupla-cidadania. E o que é ser Libanês? Em primeiro lugar, temos que entender o que é Jus sanguinis.

“Jus sanguinis (pronuncia-se ius sánguinis) é um termo latino que significa “direito de sangue” e indica um princípio pelo qual uma nacionalidade pode ser reconhecida a um indivíduo de acordo com sua ascendência. O jus sanguinis contrapõe-se ao jus soli que determina o “direito de solo”. O princípio de sangue foi forjado principalmente em conseqüência das grandes emigrações européias dos séculos XIX e XX, visando a dar um abrigo legal aos filhos dos emigrantes nascidos fora do território de determinada nação. Ainda hoje, na maioria dos países europeus, o princípio do jus sanguinis ainda se mantém como forma principal da transmissão da nacionalidade, o que tem sofrido críticas crescentes pois privilegia filhos de europeus nascidos no exterior em detrimento de filhos de imigrantes não-europeus nascidos na Europa. Muitos países como o Reino Unido e, mais recentemente, a Alemanha já modificaram suas leis e passaram a adotar o princípio de sangue aliado ao princípio de solo em suas leis de nacionalidade.No Brasil, por sua vez, prevalece o direito de solo nas leis de nacionalidade. Isto ocorre justamente em função do impulso à colonização exercido pelos países do Novo Mundo, com grandes áreas pouco povoadas”. wikipédia

 Entre biscoitos, poemas e objetos de família, Lucy com paciência e generosidade recebeu nossa equipe cheia de curiosidades e com enorme ignorância sobre as memórias e valores dos descendentes de libaneses no Pará. Lucy nos explica sobre os aspectos legais da identidade libanesa cujo princípio é jus sanguinis: “ Para nós, ser Libanês é ter pai e mãe libaneses, é o sangue puro libanês que garante a cidadania libanesa”. Este fato contribuiu para que as primeiras famílias de imigrantes desejassem que seus filhos casassem com libaneses. “No Brasil, casa-se por amor, no Líbano os casamentos são contratos que envolvem as famílias”. No Brasil, para alguns libaneses manter a cidadania libanesa para os filhos, era também garantir o legado cultural e de costumes de sua terra. Certamente, a maior herança que um pai pode deixar aos filhos. Em uma terra distante, diferente em tantos aspectos, como garantir que esses valores pudessem ser repassados aos descendentes? Contudo, mesmo seguindo os costumes libaneses, a vida, o lugar, surpreendia e de alguma maneira alterava os costumes.

A identidade preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior”- entre o mundo pessoal e o mundo público de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornado-os “parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade então costura (ou, para uma metáfora médica, “sutura”) o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis (HALL 1992, p 11 – 12).

Nesta interação e alteração de valores surgiu um termo comum entre os descendentes de libaneses –Libanês da primeira geração- Mas, afinal, o que seria isso? Responde Marlene: “São os filhos de imigrantes nascido em terras brasileiras, tem pai e mãe libaneses, criados com costumes libaneses” Karin explica:”quando se encontram, falam em árabe e tão rápido, que nós brasileiros não entendemos nada”. Mariza define: ” cochichavam os segredos de família em francês, nós as crianças não entendíamos”. E assim, descobrimos que além da legalidade, entre a comunidade de descendentes libaneses existe e existiram práticas e comportamentos que foram com o tempo, criando diversas formas de identificação com a cultura e a identidade libanesa.

Estes descendentes da primeira geração, hoje possuem a autoridade no repasse dos valores mais caros aos primeiros imigrantes. A eles cabem os segredos da cozinha árabe,  as fotos de família, as histórias de famílias com as datas e nomes corretos, os almoços com Narguilé, enfim, as lembranças de um lugar doce chamado, Líbano.

Para além dos descendentes de primeira geração. Existem para nós brasileiros, os libaneses que não negam o sangue, ou melhor, os narizes! Confesso que também sou possuidora de um belo exemplar de nariz, e sempre ouvi em minha casa um diálogo assim:

 – Eu não sabia, que fulano é libanês?

– Não vistes o nariz? põe um véu pra ver se ele passa pela imigração!

 Neste caso, estamos falando desta identidade que o descendente de libanês, aprendeu a lidar em solo brasileiro.  Este olhar bem-humorado do brasileiro sobre aqueles que são diferentes.

Para nós brasileiros,  libaneses são todos aqueles “turcos que tem pai ou mãe descendentes de libaneses”. “possuidores de grandes narizes” “são bastante econômicos” , “sentam em cima da perna, principalmente os homens”, “os que tem sobrancelhas grossas” e  “adoramos ir a sua casa para comermos a verdadeira comida árabe!”.

Enfim, quem de algum modo, ligado a esta cultura e valores, fazendo parte de uma “nação” quase invisível na história “oficial” da cidade, entretanto que nós, brasileiros que os reconhecemos como diferente, eles  fazem parte de nosso dia-a-dia. Tenho muitos amigos e amigas descendentes de libaneses em Belém do Pará. Comprei muito tecido, brinquedo, louças, materiais de construção e fogos de artifício na loja destes “turcos”. Reconheço com alegria, esse povo Brasileiramente, árabe! enqunto ouço minha amiga Larissa Latif dizer ás gargalhadas: NÓZ NÃO É DURCA, NÓZ É LIBANÊZ! ENDENDE O DIFERENZA, VAI ESTUDAR GEOGRAVIA! DURCO É DO DURQUIA, NÓZ É DO LÍBANO, LÍBANO!


7 Respostas to “Naturalmente, Libanês!”

  1. […] Naturalmente, Libanês! Outubro, 2009 3 […]

  2. Muito interessante o approach. Meus avos paternos sao libaneses tambem de Wuajh Al Hajar. Estou indo ao Libano, e creio que todos os libaneses brasileiros deveriam fazer o mesmo, requerer sua nacionalidade libanesa e divulgar nossa cultura milenar.

  3. Parabéns!
    Mabrouk!
    Carlos Khattar
    Rio de Janeiro RJ

  4. Fico triste pelo povo Libanês ser tão xenofóbico e não recepcionar o estrangeiro tão bem como fazemos aí no Brasil. Amo o Líbano (a comida, a cultura, a geografia etc) mas não me sinto confortável com os Libaneses. Realmente, nós abraçamos o povo Libanês de uma forma tal que até mesmo os que não nasceram no Brasil se sentem “Brasileiros no coração”. Quanto a mim como brasileira no Líbano, nunca me sentirei “Libanesa”, mesmo que fosse o concedido a mim o direito legal de me sentir como tal.

    By the way… Parabéns pelo texto. Muito interessante!🙂

    • Acho que o fato de voce se sentir rejeitada no Libano,pode ser pelo fator “religiao”,e não pelos libaneses…pois os libaneses são muito receptivos,tanto aqui no Brasil como em qualquer pais em que vivam.
      Um abraço.

  5. Adorei esta ideia!!!

  6. Adorei esta ideia,ser arabebrasileira e brasileiraarabe é sensacional!!!

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