diário de bordo do processo de criação, por Karla Pessoa

•Fevereiro 4, 2010 • Deixe um Comentário

tempestades de palavras

 

Diário de bordo da atriz Karla Pessoa sobre o processo de criação do espetáculo “Brasileiramente, árabe!”, um dos resultado da pesquisa de mesmo título da professora da ETDUFPA Karine Jansen, que aborda a influência das práticas performáticas libanesas no Estado do Pará.

Montar “Brasileiramente, árabe!” tem sido um exercício diário de percepção e associações de imagens. Ao longo dos encontros, atores e direção exploram objetos cênicos e atribuem a eles simbologias, relacionadas às informações adquiridas ao longo do trabalho de pesquisa da professora Karine Jansen. O ponto de partida tem sido as cartas enviadas pelas famílias libanesas ao blog da pesquisa. https://brasileiramentearabe.wordpress.com Essas cartas carregam uma multiplicidade de informações, sentimentos e sensações e tornam-se, sobretudo, um rico material para os atores. Nelas, encontramos referências a imigração das familias árabes que desembarcaram no Brasil, por volta do século XIX e inicio do século XX, por motivações políticas. Explorar essas cartas é trazer para o palco a possibilidade de revelar as relações culturais estabelecidas em Belém e no estado do Pará, que contribuem para a formação da nossa história e, consequentemente, da nossa identidade. “Acreditamos que contribuímos neste projeto, com a memória da cidade e do país ao revelar as camadas culturais de pouca visibilidade social, além de acrescentar um olhar diferente para as culturas árabes e paraense. Pois, se a cultura árabe está exaustivamente exposta na mídia e relacionada a conflitos políticos, econômicos e religiosos, a cultura paraense muitas vezes, está aprisionada em estereótipos incapazes de indicar a sua complexidade e diversidade, tornando pouco conhecida, até mesmo dos paraenses.”

http://brasileriamentearabeumolhar.blogspot.com/

DOIS IRMÃOS, ADAPTAÇÃO PARA O TEATRO

•Dezembro 29, 2009 • Deixe um Comentário

O Centro Cultural Banco do Brasil

apresenta

DOIS IRMÃOS

ESPETÁCULO TEATRAL, ADAPTAÇÃO LITERÁRIA

 

Primeira adaptação teatral de um romance do premiado escritor Milton Hatoum,

peça dirigida por Roberto Lage estréia em 14 de agosto, no CCBB – SP

“Sob uma grande seringueira, contaremos esta linda saga dividida entre a cidade de Manaus e sul do Líbano.”

A conturbada trajetória dos gêmeos Yaqub e Omar, na Amazônia, durante o regime militar é contada pelo escritor manauense Milton Hatoum no romance Dois Irmãos, lançado em 2000, vencedor do Prêmio Jabuti, como dois outros livros do autor, Relato de Um Certo Oriente (1989) e Cinzas do Norte (2005).

Eleito por críticos literários como o melhor romance brasileiro dos últimos quinze anos, Dois Irmãos, é a primeiro texto de Hatoum que chega ao teatro, adaptado por Jucca Rodrigues, com direção de Roberto Lage.

O espetáculo estréia em 14 de agosto no Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo, tendo no elenco Imara Reis, Luiz Damasceno, Vivianne Pasmanter, os irmãos Jiddu Pinheiro e Gabriel Pinheiro como Omar e Yaqub, Tatiana Thomé, Bete Correia e Rodrigo Ramos.

Na equipe de criação, Paula Valéria (figurinos), Davi de Brito e Vânia Jaconis (iluminação), Alexandre Toro (cenário) e Aline Meyer (trilha sonora). Direção geral de produção de Alexandre Brazil, gestão de produção pelo Escritório das Artes. Uma realização do Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo.

A História

A história acontece em Manaus e traz na trama central a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. O menino Omar, num gesto movido por um ciúme quase infantil, rasga o rosto de seu irmão gêmeo Yaqub com uma garrafa. Esta briga entre os irmãos leva Yaqub para um exílio forçado no Líbano. O pai Halim queria enviar os dois para o Lìbano, mas Zana insistiu que Omar, sempre visto como o mais frágil dos dois, ficasse. Yaqub retorna à Manaus em meados dos anos 40, e à partir daí traça e segue à risca seus planos: muda-se para São Paulo, a contragosto da mãe, forma-se engenheiro e casa-se, ao passo que Omar, ainda sob as asas protetoras da mãe, passa os anos em meio a festas, bebedeiras e mulheres.

Há um personagem que só se revelará ao longo da história: Nael. Domingas, mãe de Nael, é a empregada da família. Ela foi violentada por Omar na mesma época que viveu uma relação com Yaqub. É Nael quem nos conta toda a história. Espectador privilegiado, reconstitui no labirinto da memória os detalhes de tudo que viu e ouviu, juntando as peças de um mosaico na tentativa de descobrir a sua identidade entre os homens da casa.

Dois Irmãos no teatro, para o escritor Milton Hatoum

Milton Hatoum, autor do romance Dois Irmãos, diz ter se surpreendido ao assistir a um ensaio da peça: “Quando escrevi o romance não pensei que poderia ser adaptado ao cinema nem ao teatro, linguagens diferentes que exigem trabalho de equipe. O romance é apenas uma fonte de inspiração e de sugestões para a peça. O texto de Jucca Rodrigues, ao optar por recortes significativos do romance, deu densidade às cenas mais dramáticas, respeitando o jogo temporal da ficção. Me emocionei em vários momentos do ensaio. Tudo surpreende quando se trata de uma peça, pois é outra linguagem. Procuro tomar distância. Sou apenas um espectador apaixonado pelo teatro”.

Hatoum continua: “Admiro há muito tempo o trabalho de Roberto Lage, diretor que privilegia o teatro narrativo. No ensaio a que assisti, me impressionou a direção e o desempenho dos atores. Reconheci as linhas de força do drama familiar. Ouvir a voz dos personagens e vê-los no palco é uma experiência diferente da leitura solitária. Eles vivem no palco o que o leitor apenas imagina nas páginas do livro. Agora cabe ao espectador dar a palavra final sobre a peça”.

Milton Hatoum nasceu em 1952 em Manaus. Filho de imigrantes libaneses, mudou-se aos 15 anos para Brasília, onde concluiu o secundário. Em 1970, mudou-se para São Paulo, ingressando no curso de arquitetura e urbanismo na Universidade de São Paulo (USP). Nos anos 80, morou em Madri e Barcelona e fez pós-graduação na França, na Universidade Paris 3. De volta a Manaus, lecionou língua e literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas.

Em 1988, ganhou bolsa da Fundação Vitae para escrever seu primeiro romance, Relato de um Certo Oriente, publicado no ano seguinte. Na década de 1990, morou alguns meses na França e foi professor visitante da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Em 1998, tornou a se estabelecer em São Paulo, onde se doutorou em teoria literária pela USP. Depois de publicar contos em jornais e revistas do Brasil e do exterior, lançou Dois Irmãos (2000) e Cinzas do Norte (2005).

Com os três primeiros livros, Hatoum ganhou três vezes o Prêmio Jabuti de melhor romance (em 1990, 2001 e 2006), um dos mais importantes prêmios literários nacionais. Sua obra mais recente é Órfãos do Eldorado (2008), publicado pela Companhia das Letras, assim como os anteriores. Hoje, Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos encontram-se traduzidos em diversos idiomas.

Um pouco sobre o trabalho de Roberto Lage na peça Dois Irmãos

Para esta montagem, Roberto Lage escolheu o viés do teatro narrativo. “Acredito que o teatro narrativo seja um fenômeno mundial. Vejo nele a oportunidade para o teatro resgatar seu papel de contador de histórias diante do dinamismo de mídias como TV, cinema e internet”.

Sua proposta para o espetáculo é criar “um jogo vivo” com o público. Fragmentos da história são dramatizados e ligados por fios narrativos: “Os contadores são os próprios personagens, numa estrutura que permite ao espectador sentir-se dentro da trama, numa relação de igualdade com os personagens”.

Cenários, luzes e figurinos são simples ao mesmo tempo em que cumprem papel essencial. Especialmente em relação ao cenário, a montagem enfrenta o desafio de traduzir a exuberância da Amazônia em um palco evitando a representação realista. Para isso, o cenógrafo Alexandre Toro criou painéis que, dependendo da luz, ora remetem a elementos da selva, ora a signos mouriscos. Além da presença de uma enorme raiz de seringueira no palco.

Lage acredita que os deuses do teatro conspiram a favor da montagem, uma vez que rapidamente a iniciativa reuniu fatores desejáveis, porém de difícil conciliação no mundo do teatro: o projeto aprovado por leis de incentivo cultural, o patrocínio do Banco do Brasil, a disponibilidade da sala do CCBB, o surgimento dos direitos adquiridos pela atriz Bete Correia de um texto que Lage já conhecia e amava, sem falar no elenco.

Por exemplo, só depois de escolhidos os irmãos Jiddu e Gabriel Pinheiro para os papéis centrais é que o diretor soube que eles são de Belém (PA) e, em razão dessa origem, têm familiaridade com os valores indígenas e a cultura regional.

Nascido em São Paulo em 1947, Lage é um dos realizadores mais profícuos do teatro brasileiro. Já dirigiu mais de 130 espetáculos desde que aderiu ao teatro, no início dos anos 60. Trabalhou com os mais variados gêneros, passando por teatro infantil e adulto, teatro amador, universitário, experimental, teatro de grupo, produções comerciais, ópera e outros. Também já recebeu importantes prêmios.

Destacam em sua carreira as montagens À Flor da Pele (1976), de Consuelo de Castro; Besame Mucho (1982), de Mario Prata; Escola de Mulheres (1984), de Molière; Meu Tio, o Iauaretê (1986), de Guimarães Rosa e Namoro (1991), de Ilder Miranda da Costa. Nos anos 90, foi aplaudido em Portugal, onde dirigiu, em diferentes oportunidades, Para Tão Longo Amor, de Maria Adelaide Amaral; Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues; e A Ópera do Malandro, de Chico Buarque.

Em 1999, fundou, com Celso Frateschi, o Ágora, Centro para o Desenvolvimento Teatral, que promove atividades de aperfeiçoamento de atores e que propõem reflexões sobre o fazer teatral. Desde o ano 2000, já montou textos de Plínio Marcos, Maquiavel, Pasolini, Camus, Duras e muitos outros.

O dramaturgo Jucca Rodrigues

A adaptação do texto de Dois Irmãos para o teatro ficou a cargo do dramaturgo Jucca Rodrigues, que define seu trabalho como um “imenso e apaixonante desafio”. Ele optou por contar a história sem linearidade ou narrativa cronológica, tal como o original de Milton Hatoum.

Este é o primeiro texto de Jucca a ser montado. O dramaturgo, que ministra oficinas de teatro, conhece Roberto Lage há cerca de oito anos e juntos já realizaram vários trabalhos. Para Jucca, grande parte de seu conhecimento sobre teatro se deve à participação no centro Ágora.

Dois Irmãos – Equipe de Criação

Elenco – Imara Reis (Zana), Luiz Damasceno (Halim), Vivianne Pasmanter (Domingas), Jiddú Pinheiro (Omar), Gabriel Pinheiro (Yaqub), Tatiana Thomé (Rânia), Bete Correia (Lívia), e Rodrigo Ramos (Nael).

Ficha Técnica – Direção geral: Roberto Lage / Adaptação para o teatro: Jucca Rodrigues / Figurinos: Paula Valéria / Iluminação: Davi de Brito e Vânia Jaconis / Cenário: Alexandre Toro / Trilha Sonora: Aline Meyer / Direção Geral de Produção: Alexandre Brazil / Gestão de Produção: Escritório das Artes

DOIS IRMÃOS – Serviço

Estréia: 14 de agosto de 2008, quinta-feira, às 20h (apenas para convidados)

Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112 – Centro – São Paulo – Informações: (11) 3113-3651 / 3113-3652 – http://www.bb.com.br/cultura)

Horários: quintas, sextas e sábados, às 19h30, e domingos, às 18h

Temporada: de 15 de agosto a 05 de outubro de 2008.

Duração do espetáculo: 100 minutos.

Lotação: 125 lugares

Classificação etária: 14 anos.

Preços: R$ 15,00 e R$ 7,00 (meia-entrada)

Horário de funcionamento da bilheteria: das 10h às 20h

Ingressos antecipados: http://www.ingressorápido.com / (11) 2163-2000

Aceita cartões de crédito Visa ou Mastercard, cheque ou dinheiro

Clientes do Banco do Brasil pagam meia-entrada apresentando o cartão do Banco na bilheteria.

Dois Irmãos e Brasileiramente, árabes! um olhar sobre a história e a cultura libanesa na Amazônia por Suani Trindade

•Dezembro 27, 2009 • Deixe um Comentário

DOIS IRMÃOS e BRASILEIRAMENTE, ÁRABES! Um olhar sobre a história e cultura libanesa na Amazônia

Suani Trindade CORREA (UFPA/CAPES)

José Guilherme dos Santos FERNANDES (orientador)

RESUMO: Partindo do pressuposto que a literatura é uma produção cultural, este trabalho apresentado à disciplina Estudos da Literatura da Amazônia, sob a orientação do Prof. Dr. José Guilherme dos Santos Fernandes, irá percorrer o universo da obra literária Dois Irmãos, do escritor amazonense Milton Hatoum, na busca de explorar os aspectos relacionados à identidade, cultura, história, relacionando-o com a pesquisa Brasileiramente, árabes: um estudo das práticas performáticas dos imigrantes libaneses em Belém do Pará, desenvolvida pela Profa. Dra. Karine Jansen. O intuito é possibilitar um diálogo, uma conversa com esta obra literária e a pesquisa desenvolvida, para que possamos ter um panorama sobre a história e cultura libanesa na Amazônia, além da compreensão da realidade amazônica mediante a produção literária.

Palavras-chave: Dois Irmãos, Brasileiramente, árabes!, cultura, história, identidade

A internet, os libaneses e eu

Todos já devem saber que sou uma aspirante a “ratinha” da Internet, isto é, alguém que fuça o ciberespaço, o “novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica […] o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo.” (LÉVY, p.17). Navego nesse universo atrás de novas informações, curiosidades, novos blogs criados etc. Neste meu caminhar ciberespacial, quase todos os dias, visito a Rede de Teatro da Floresta , o “Orkut” dos artistas e como tal, não poderia estar de fora. Lá, tenho minha página reservada, ao alcance de todos.

Certo dia, ou noite, pois a memória não está tão precisa agora, feito ratinha, vi uma postagem de Karine Jansen intitulada “Carta de Olinda Charone que apenas tem um sobrenome libanês, mas não se sente tal”. Essa carta é um depoimento da professora Olinda, para o projeto de Karine sobre os imigrantes libaneses em Belém do Pará. Abaixo, a carta-depoimento:

Acho que só estou me dando conta que sou, ou melhor, que tenho um nome libanês agora, quando você me pede para escrever uma carta. Nunca pensei nisso e nem tampouco que sou descendente de libanês. Antes quando alguém me perguntava “de onde vem este Charone?” “ de que lugar é ele, o nome?” Eu dizia que era do meu pai, e que ele era descendente de Libanês, e que eu achava que ele era de lá, mas era o máximo que eu podia responder e não me causava nenhuma curiosidade para saber mais, talvez porque a curiosidade era outra, ou melhor, a necessidade era outra, de ter um pai perto de mim, e não um sobrenome apenas. E este talvez tenha sido o único entrave para eu não procurar saber nada sobre este País, sobre este povo de tão longe. Não me sinto uma libanesa porque fui criada por uma cabocla, longe desse libanês. Não tenho costumes libaneses, não gosto da comida libanesa, não é que não goste, não fui habituada a comer e quando não se é, não se tem. Não tenho curiosidade de conhecer o País, tenho curiosidade de conhecer o meu pai, e que se talvez isso acontecesse eu viesse a me sentir e a gostar dos costumes desse lugar e até sentir vontade de visitar. A única coisa que me faz perceber que tenho alguma característica é o MEU NARIZ, que se é pra te falar e ser sincera eu não gosto dele, queria que meu nariz fosse diferente, um pouco menor, sem estas características que me faz parecer o que eu não quero ser, ou tenha mágoas e abomine todas as características que vem de lá. Tenho muitos chales aqui em casa, saí algumas vezes com uns, mas me sinto ridícula com eles, só tenho vontade de ter na gaveta. Acho que não sei usá-los, mas acho bonitos. Desculpa eu te falar dessa maneira, mas são os meus sentimentos EU SOU UMA DESCEDENTE REVOLTADA, AQUELA QUE É SEM SER, mas a culpa é dele outro descendente que não me deu a mínima. Acho que isso não serve nada pra ti. Bj! (CHARONE, 2009)

Ao ler o depoimento, imediatamente fui levada a pensar sobre a obra que lia naquele momento: Dois Irmãos, de Milton Hatoum. A obra publicada em 2000, conta a história conturbada dos irmãos, gêmeos, Omar e Yaqub, de descendência árabe, libanesa, cujos traços identitários oscilam entre a árabe e a brasileira, respectivamente.

Assim, resolvi iniciar um estudo com essa obra, considerando os aspectos relacionados à identidade, identificação, cultura e história, tanto do plano ficcional quanto da própria obra em questão. Além disso, proponho uma conversa entre o romance de Hatoum e a pesquisa de Karine. Mas, de antemão, gostaria de informar que é um estudo inicial, não definitivo, não redutivo.

A pesquisa; o romance

Brasileiramente, árabes! é uma pesquisa desenvolvida na Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, pelo grupo de pesquisa PACA – Pesquisadores em Artes Cênicas da Amazônia, contando com os seguintes pesquisadores e profissionais de teatro da cidade de Belém: Karine Jansen, Larissa Latif, Maridete Daibes, Marckson Moraes, Cleice Maciel (bolsista-CNPQ), Carlos Vera Cruz (bolsista-CNPQ), Dário Jaime, Wlad Lima e Olinda Charone.

O principal objetivo da pesquisa é construir uma cartografia sobre as práticas performáticas dos descendentes de libaneses da cidade de Belém; investigar em que aspectos, suas práticas performáticas estruturam ou compõem a identidade desses libaneses-amazonicos-belemenses.

O grupo propôs essa pesquisa “por sua vivência cotidiana numa dimensão estética amazônica hibridizada pelos comportamentos e manifestações culturais oriundos de diferentes povos – especificamente nesse projeto, o povo Árabe – construtores da esfera imaginária da cidade de Belém do Pará.” (JANSEN, 2009). O desejo dos pesquisadores foi alimentado pela observação e registro de relatos, sobre a atuação libanesa na Amazônia, a sua influência no comércio local – seja em pequenos comércios familiares ou nos tradicionalmente nomeados de “barcos de regatão” – na arquitetura, língua, costumes, culinária etc.

Assim teremos um estudo onde o cerne será a cultura, já que nós somos produtos dela e de suas transformações, como comenta Iser:

[Os antropólogos] Consideram a cultura uma resposta a desafios e essa resposta uma revelação daquilo que os homens são. Essa dupla-face da cultura enquanto produto e exteriorização de manifestações humanas repercute nos próprios homens, pois são moldados por aquilo que exteriorizam, isto é, são ‘artefatos culturais’, na formulação de Geertz.

Todas as informações, relatos, fotos, podem ser encontradas no blog da pesquisa: http://www.brasileiramentearabe.wordpress.com.

Dois Irmãos é o romance de Milton Hatoum que narra a conturbada trajetória de Yaqub e Omar, irmãos-gêmeos. Mostra um drama de uma família, habitante da cidade de Manaus, e que é o retrato de uma gradativa desolação do homem, perdido de si mesmo e imerso em um crescente individualismo. Além disso, a figura de Zana é muito forte, cuja presença matriarcal impera sobre toda a família.

O romance é narrado pelas lembranças de Nael e de certa maneira, por Domingas, sua mãe, e Halim, pais dos gêmeos, personagens que “emprestam” também suas reminiscências ao narrador o qual une os pedaços dilacerados de um tempo e de um espaço para assim construir o enredo da obra. Assim, teremos a memória como um traço característico na narrativa.

Talvez por esquecimento, ele [Halim] omitiu algumas cenas esquisitas, mas a memória inventa, mesmo quando quer ser fiel ao passado. Certa vez tentei fisgar-lhe uma lembrança: não recitava os versos de Abbas antes de namorar? Ele me olhou, bem dentro dos olhos, e a cabeça se voltou para o quintal, o olhar na seringueira, a árvore velha, meio morta. E só silêncio. Perdido no passado, sua memória rondava a tarde distante em que o vi recitar os gazais de Abbas. (Dois Irmãos, p.67)

Através desses objetos, terei aqui uma versão, certo olhar sobre um determinado momento da história, pois “articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.” (BENJAMIM, p.224). Pois a Literatura não está procurando uma verdade, mas sim uma possibilidade.

Contudo, mesmo não almejando uma verdade absoluta, “para Geertz, ainda que inventada, as ficções não são inverídicas, nem meras construções do tipo ‘como se’, porque dizem respeito aos seres humanos e ao habitat que ‘essas criaturas inacabadas’ estão sempre criando.” (ISER, p. 156). Logo, um texto narrativo deve ser encarado como uma representação da realidade, mas não deverá significar algo dado, mas sim, compreendida como se fosse algo dado.

A imigração árabe no Brasil

A imigração árabe no Brasil aconteceu de forma distinta das imigrações japonesas e européias, pois estas foram resultados de uma política governamental de cunho econômico. Os imigrantes árabes, especialmente os libaneses, desembarcam no Brasil, por volta do final do século XIX e início do século XX, pois estavam fugindo das invasões que ocorreram em seu país. A primeira invasão foi a turca, seguindo das francesa e inglesa. Portanto, a imigração ocorreu por motivos políticos.

Os imigrantes do Líbano e da Assíria, ao chegarem ao Brasil, tinham seus passaportes carimbados como Turco, pela imigração. Isto ocorria pelo fato desses Estados fazerem parte, legalmente, do Império Otomano. Tal fato histórico é citado no romance, em um momento que o narrador rememora as lembranças de Halim, quando este fala que conversava com sua esposa, Zana, sobre a infância dela na cidade de Biblos:

Deitados na rede, conversavam sobre Galib, a infância de Zana em Biblos, interrompida aos seis anos, quando ela e o pai embarcaram para o Brasil. O pai a levava para banhar-se no Mediterrâneo, depois caminhavam juntos pelas aldeias, eles e um médico formado em Atenas, o único doutor de Biblos; visitavam amigos e conhecidos, cristãos intimidados e mesmo perseguidos pelos otomanos. (p.47)

Há dados que mostram que a cidade de Belém possui hoje cerca de 25.000 descendentes de libaneses, estimativa projetada pelo pesquisador Sr. Zaidan, afirmando ainda que o número possa ser ainda maior, visto que muitos descendentes tiveram seus nomes árabes excluídos por vontade própria, por questões com a imigração, ou mesmo por erro de grafia nos cartórios. (JANSEN, 2009)

O termo “fé em Deus e pé na tábua” dito pelos imigrantes ao saírem do navio, traduz a vontade e a crença no Brasil como lugar de reconstrução de uma nova vida, em busca da “nova Andaluzia”, referência a cidade espanhola. Logo, teremos uma Amazônia com fortes aspectos culturais deste povo.

Mas afinal de contas, o que é ser naturalmente, libanês?

Na pesquisa, há relato de uma senhora de nome Lucy, que explica sobre os aspectos legais da identidade libanesa, baseados no princípio jus sanguinis: “Para nós, ser Libanês é ter pai e mãe libaneses, é o sangue puro libanês que garante a cidadania libanesa.”

Tal princípio fez com que as primeiras famílias de imigrantes quisessem que seus filhos casassem com libaneses. D. Lucy continua e entrevista dizendo o seguinte: “No Brasil, casa-se por amor, no Líbano os casamentos são contratos que envolvem as famílias”. Indo em direção a obra literária, o que é apontado por Hatoum vai ao desencontro das palavras de D. Lucy, já que Halim e Zana se casam apaixonados um pelo outro, ele muito mais. Há uma conquista por parte do pretendente, quando este ler os gazais de Abbas a ela. Assim, o amor, o desejo, a paixão, foram o mote para o enlace matrimonial dos dois personagens.

‘Lindos poemas’, elogiou Galib. ‘Uma mulher sentiria essas palavras na carne. ’ (p.17)

Ele deu três passos na direção de Zana, aprumou o corpo e começou a declamar os gazais, um por um, a voz firme, grave e melodiosa, as mãos em gestos de enlevo. Não parou, não pôde parar de declamar, a timidez vencida pela torrente da paixão, pelo ardor que irrompe subitamente. […] Ninguém o molestou, nenhuma voz surgiu naquele momento. Então ele se retirou do Biblos. E dois meses depois voltou como esposo de Zana. (p.39)

Há um ponto aí que gostaria de salientar: Halim e Zana são libaneses que moram no Manaus. Por isso o casamento entre eles não foi um contrato? Se estivessem no Líbano, seria diferente? Segundo o princípio jus sanguinis, esses personagens são puramente libaneses. Zana nasceu Biblos, tendo o pai e mãe libaneses. Com relação a Halim, não há indícios no texto que aponte tal descendência, mas podemos pensar que é, pelo próprio comportamento descrito na obra ficcional.

O que é perceptível na obra como um todo, é que há alteração de alguns valores e costumes libaneses, ou nas palavras de Rama (2007), ocorre o processo de transculturação, que seria a tríade aculturação (dominado) + desculturação (dominante) = neoculturação (nova cultura). No romance, há um entrelaçamento e um afastamento entre a cultura árabe e a cultura brasileira, pois muito das ações descritas no romance, apontam para tal questão. Em vários momentos na obra, somos levados a pensar que esses libaneses são mais brasileiros e que, por vezes, há certa negação, não total, de sua cultura de origem, como no momento em que Yaqub volta do Líbano, após passar cinco anos:

Meu filho vai voltar um matuto, um pastor, um ra’í. Vai esquecer o português. (p.12)

Zana não queria que o filho fosse para lá, o que nos leva a imaginar que, talvez, ela se sinta mais brasileira do que libanesa. Mas talvez o seja, pois ela chegou ao Brasil com seis anos de idade. Era uma criança e seus costumes foram sendo “alterados”, “complementados” pelo contato com uma terra diferente. Segundo Jansen (2009), quando estamos em uma terra distante, “diferente em tantos aspectos, como garantir que esses valores pudessem ser repassados aos descendentes? Contudo, mesmo seguindo os costumes libaneses, a vida, o lugar surpreendia e de alguma maneira alterava os costumes.”

Ela continua, afirmando que,

Nesta interação e alteração de valores surgiu um termo comum entre os descendentes de libaneses -Libanês da primeira geração- Mas, afinal, o que seria isso? Responde Marlene: ‘São os filhos de imigrantes nascido em terras brasileiras, tem pai e mãe libaneses, criados com costumes libaneses’. […] E assim, descobrimos que além da legalidade, entre a comunidade de descendentes libaneses existe e existiram práticas e comportamentos que foram com o tempo, criando diversas formas de identificação com a cultura e a identidade libanesa.

Neste quadro, temos as figuras dos irmãos-gêmeos Yaqub e Omar, libaneses da primeira geração. Mas, que a meu ver, não transparecem personagens criados com verdadeiros costumes libaneses. Para mim há uma oposição cultura árabe x cultura brasileira, onde Yaqub seria a representação da primeira e Omar da segunda.

“Apreensivo, ele se aproximou do moço, os dois se entreolharam e ele, o filho, perguntou: ‘Baba?’. E depois os quatro beijos no rosto, o abraço demorado, as saudações em árabe.” (p.11)

“Yaqub, que perdera alguns anos de escola no Líbano, era um varapau numa sala de baixotes. Zana temia que ele mijasse no pátio do colégio, comesse com as mãos no refeitório ou matasse um cabrito e o trouxesse para casa. Nada disso aconteceu. Era tímido, e talvez por isso passasse por covarde. Tinha vergonha de falar: trocava o pê pelo bê ( Não Bosso, babai!Buxa vida!), e era alvo de chacota dos colegas e de certos mestres que o tinham como uma rapaz rude, esquisito: vaso mal moldado. […] Ali, trancado no quarto, ele varava noites estudando a gramática portuguesa; repetia mil vezes as palavras mal pronunciadas: atonito, em vez de atônito. A acentuação tônica…um drama e tanto.” (p.24-25)

“Omar mal percebia o vulto arqueado sob o alpendre, Ia direto ao banheiro, provocava golfadas a bebedeira da noite, cambaleava ao tentar subir a escada.” (p.26)

Há uma quebra, uma ruptura de valores, os quais os personagens representam o espelho de um “jogo” cultural que vivemos, onde as negociações estão sempre acontecendo. Como aceitar uma nova cultura? Eu preciso, de fato, aceitá-la? E como aceitar o outro, aparentemente tão diferente de mim? Porém, em Dois Irmãos, a relação dos irmãos-gêmeos não tem espaço para a negociação.

Yaqub negou abrigo ao irmão. Escreveu á mãe que podia alugar um quarto numa pensão para Omar e matriculá-lo num colégio particular. Podia enviar notícias sobre a vida dele em São Paulo, mas não ia permitir que o irmão dormisse sob seu teto. ‘Que ele encontre o caminho dele, mas longe de mim, muito longe da minha seara.’ ( p.78)

Então eu o avistei: mais alto que a cerca, o corpo crescendo, se agigantando, a mão direita fechada que nem martelo, o olhar alucinado no rosto irado. Arfava, apressando o passo. Quando gritei, Omar deu um salto, ergueu a rede e começou a socar Yaqub no rosto, nas costas, no corpo todo. Corri para cima do Caçula, tentando segurá-lo. Ele chutava e esmurrava o irmão, xingando-o de traidor, de covarde. (p.175)

O que Milton Hatoum me coloca, ao ler seu romance, é que, além de um drama de família de libaneses, o romance é, antes de tudo, um drama do homem, com seus conflitos, que segundo Carpentier (2003), seria o homem barroco que ora se apresenta em equilíbrio ora em desequilíbrio.

Além disso, temos que perceber e entender a obra dentro de sua cultura. E a cultura amazônica é também esta, de imigrantes e descendentes libaneses, que “incorporaram” nossos costumes e que fizeram que “incorporássemos” os deles. É um vai-vem, uma mão de via-dupla. Isto ficou bem claro ao conhecer a pesquisa, pois percebi que a cultura árabe está tão presente de nós mais do imaginava. E nesse caminhar segue também a literatura que, sendo da Amazônia, irá representar tais acontecimentos, pois Amazônia não apresenta só rios, ribeirinhos, floresta, ela também é urbana, é árabe.

Voltando a pesquisa, tem-se a informação que estes descendentes da primeira geração, hoje possuem a autoridade no repasse dos valores mais caros aos primeiros imigrantes. A eles cabem os segredos da cozinha árabe, as fotos de família, as histórias de famílias com as datas e nomes corretos, os almoços com Narguilé , enfim, as lembranças de um lugar doce chamado, Líbano. Destaquei as últimas palavras para contrapor com um trecho que não parece muito saudosista e alegre ao se falar da cidade libanesa. Nesse trecho, o jovem Nael narra uma situação um tanto incomôda que paira por causa de uma pergunta que o personagem Talib fez a Yaqub:

Foi então que aconteceu o inesperado: Talib, voz grossa e troante, triscou no assunto:

‘Não sentes saudades do Líbano?’

Yaqub ficou pálido e demorou a responder: Não respondeu, perguntou:

‘Que Líbano?’

Halim tomou mais um gole de café, franziu a testa, olhou sério para o filho. Zana mordeu os lábios, Rânia seguiu com os olhos, até encontrar o japiim-vermelho que piava num galho da seringueira, perto de mim.

‘Por enquanto, só há um Líbano’, respondeu Talib. ‘Quer dizer, há muitos, e aqui dentro cabe um.’ Ele apontou para o coração.

[…]

‘Não morei no Líbano, seu Talib.’ A voz começou mansa e monótona, mas prometia subir de tom. E subiu tanto que as palavras seguintes assustaram: ‘Me mandaram para uma aldeia no sul, e o tempo que passei lá, esqueci. É isso mesmo, já esqueci quase tudo: a aldeia, as pessoas, o nome da aldeia e o nome dos parentes. Só não esqueci a língua…’. (p.88-89)

Entretanto, há outro trecho representativo do que seria esse doce Líbano. Galib, pai de Zana, depois do casamento da filha, retornaria ao Líbano e com amor e alegria não conseguia se conter de tanta emoção ao voltar à pátria:

Quando voltaram ao Biblos, Zana sugeriu ao pai que viajasse para o Líbano, revisse os parentes, a terra, tudo. Era o que Galib queria ouvir. E partiu a bordo do Hildebrand, um colosso de navio que tantos imigrantes trouxe para a Amazônia. Galib, o viúvo.

[…]

Ele preparou e serviu o último almoço: a festa de um homem que regressa à pátria. Já sonhava com o Mediterrâneo, com o país do mar e das montanhas. Sonhava com os Cedros, seu lugar. (p.42)

Gastronomia e o Comércio

Os libaneses, assim como os sírios e judeus marroquinos vieram para o norte fazer “a América”, uma outra América. Muitos vieram na tentativa de conseguir o ouro, mas como não conseguiram, se estabeleceram na Amazônia como mascates. Segundo Marlene Abdelnor, proprietária do Kafta’s, em entrevista cedida a Cleice Maciel ,

Entre morrer lá, a melhor saída era essa, não é que eles estavam negando sua pátria eles estavam querendo sobreviver, minha mãe veio com 9 anos e ela não era da Síria era de Damasco e escolheram o Brasil, Amazônia e Belém por que os Libaneses sempre gostaram de ouro… lá chegou a noticia de que aqui tinha muito ouro eles vieram conhecer o ouro… e onde tinha mais facilidade de possuí-lo era em Belém do Pára… nem todos encontraram ou conheceram….

[…]

…aí vieram ser mascates, isso eles sabem fazer muito bem, aqueles que já tinham o comércio na sua tradição… O mascate é aquele que bate de porta em porta e viaja pelo interior para vender, também conhecido como caixeiro Viajante.

Marlene Abdelnor é filha de libaneses que chegaram ao Brasil por volta de 1930. Maciel descreve que para Marlene a maior dificuldade de adaptação encontrada por sua família foi a alimentação e o clima, por serem acostumados ao país de clima frio de cidade montanhosa, até que conseguiram se adaptar a carne de boi, já que aqui em Belém a carne de carneiro não era fortemente consumida.

Tiveram que plantar em casa suas verduras e legumes para alimentar a família. Seus pais ensinaram a cozinhar, os dois conheciam a culinária árabe: ‘…a Vóvó morou 15 anos em casa, sabia fazer a comida árabe, trouxe de tudo desde o pilão para bater a carne do Kibe …naquela época não tinha moedor. Na minha casa era tradição fazer diariamente comida árabe tanto é que já vim comer feijoada depois de grande, meu pai só comia comida fresca, nada de salgado ou enlatado’. (MACIEL, 2009)

O que é retratado em Dois Irmãos, com relação à culinária, é a incorporação dos hábitos alimentares amazônicos; a adaptação dos libaneses a gastronomia local. Abaixo, excertos do romance que representam tal fato:

“Estava atento a mãe, que só tinha olhos para o viajante. Halim ainda estava no quarto, Domingas arrumava na mala pacotes de farinha e mantas de pirarucu seco.” (p.33-34)

“Por volta de 1914, Galib inaugurou o restaurante Biblos no térreo da casa. […] No Mercado Municipal, escolhia uma pescada, um tucunaré ou um matrinxã, recheava-o com farofa e azeitonas, assava-o no forno de lenha e servia-o com molho de gergelim.” (p.36)

Mas ainda há presença dos hábitos libaneses:

[Halim] tirava do bolso a garrafinha de arak. (p.37)

Com relação ao comércio, já foi citado que muitos imigrantes vieram para o Brasil e se tornaram mascates. Assim como no relato de D. Abdelnor, o narrador do romance descreve como era tal profissão, exercida por Halim:

Halim havia melhorado de vida nos anos pós-guerra. Vendia de tudo um pouco aos moradores dos Educandos, um dos bairros mais populosos de Manaus, que crescera muito com a chegada dos soldados da borracha, vindos dos rios mais distantes da Amazônia. […] Manaus cresceu assim: no tumulto de quem chega primeiro. Desse tumulto participava Halim, que vendia coisas antes de qualquer um. (p.32)

As seis da manhã já estava vendendo seus badulaques nas ruas e praças de Manaus, nas estações e mesmo dentro dos bondes; só parava de mascatear por volta das oito da noite; depois passava no Café Polar, antes de voltar para o quarto da Pensão do Oriente. (p.38)

Segundo Carlos Vera Cruz , o comércio foi uma das formas de adaptação mais utilizadas pelos emigrantes libaneses em todo o mundo e no Pará não foi diferente. Os mascates foram a primeira expressão dessa atividade, que através de mímicas, devido à falta de intimidade com a língua local, vendiam suas miudezas. Essas “mímicas” já eram uma expressão performática do imigrante dentro do comércio local.

A prática de venda, “a mimicada”, pode ser enquadrada no conceito de restauração do comportamento de Richard Schechner , por originar-se de práticas de venda ancestrais da cultura libanesa, transmitidas de geração em geração e restauradas de acordo com a região em que se encontram.

Devido ao espírito empreendedor, outro traço marcante do imigrante, a “Caixa do Mascate”, tábua de salvação dos recém-chegados, ao longo dos anos, transforma-se nas primeiras firmas de imigrantes libaneses no estado do Pará (registros da Junta Comercial do Estado entre 1880 e 1915). E seus desdobramentos podem ser observados até hoje no comércio de Belém. (CRUZ, 2009)

Observa-se também que é uma prática que passa de geração em geração, fato esse apontado na obra pela personagem Rânia, filha de Zana e de Halim, que assume o comércio do pai:

O que ele esperava de Omar, veio de Rânia, e da expectativa invertida nasceu uma águia nos negócios. Em pouco tempo, Rânia começou a vender, comprar e trocar mercadorias. Conheceu os regatões mais poderosos e, sem sair de Manaus, sem mesmo sair da rua dos Barés, soube quem vendia roupa aos povoados mais distantes. (p.70)

Considerações finais

Muito foi comentado a respeito da hibridização cultural, se assim posso me referir, que o romance Dois Irmãos apresenta: temos de um lado a cultura árabe e do outro a cultura brasileira. O que se buscou aqui, nesta espécie de “ensaio”, foi salientar o contato entre essas culturas, que se apresentam de forma conflitante. Não me preocupei em saber sobre a descendência, biografia do autor do romance, pois “basta o narrador viver e conviver, através da narração, com a realidade anunciada. […] Pouco importa a certidão de nascimento do autor porque sua ascendência, seu lugar de enunciação, se objetiva no modo de sua narração.” (FERNANDES, p.115).

Por outro lado, fiz uma relação entre o romance e pesquisa Brasileiramente, árabes! pela importância que acredito que a mesma tenha, tendo como escopo os libaneses em Belém do Pará. Como consequência, o intuito de meu trabalho era apresentar uma Amazônia multicultural, complexa, mestiça, entendendo também que “literatura é uma produção cultural, originada pela relação do homem com o meio e com a paisagem que ele produz.” (idem, p.114), fugindo do ideal de uma Amazônia exótica, imagem tão vendida e vista pelos estrangeiros. E assim termino, com um excerto do romance:

O Biblos foi um ponto de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus marroquinos […]. Falavam português misturado com árabe, francês e espanhol, e dessa algaravia surgiam histórias que se cruzavam, vidas em trânsito, um vaivém de vozes que contavam um pouco de tudo. (p.36)

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, arte e política; ensaios sobre literatura e história da cultura. 7ª ed.São Paulo: Brasiliense, 1994.

CARPENTIER, Alejo. Lo barroco y lo real maravilhoso. In: Ensayos selectos. Buenos Aires: Ediciones Corregidor, 2003.

CRUZ, Carlos Vera. A terra de Vera Cruz. Disponível em: http://terradeveracruz.blogspot.com/. Acesso em: 19 de dezembro de 2009.

FERNANDES, José Guilherme. Literatura brasileira de expressão amazônica, literatura da Amazônia ou literatura amazônica?. In: Graphos. Revista de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba. Ano VI, n. 2/1, João Pessoa, 2004.

HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Companhia da Letras, 2006.

ISER, Wofgang. O que é antropologia literária?. In: Teoria da ficção; indagações à obra de Wolfgang Iser. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1999.

JANSEN, Karine. Brasileiramente, árabes! Disponível em: https://brasileiramentearabe.wordpress.com/. Acesso em: dezembro de 2009.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

MACIEL, Cleice. Um pouquinho do Líbano para você. Disponível em: http://blig.ig.com.br/danasegastronomiaarabe/. Acesso em: dezembro de 2009.

RAMA, Angel. Transculturación narrativa em América Latina. Buenos Aires: Ediciones El Andariego, 2007.

Diferença entre comida Libanesa e comida Egípicia, por Barbrinha

•Dezembro 17, 2009 • 1 Comentário

interessante relato, brasileiramnete, árabe!

veja mais em http://barbrinha.wordpress.com

Comida Libanesa:

Homus (pate de grao-de-bico)

Babaghanuche (pate de beringela)

Quibe (frito, assado, cozido, mas todos recheados, seja com carne, coalhada, nozes, etc…)

Esfirra ( de todos os recheios)

Tabule ( salada de tomate, alface, cheiro verde, hortela e trigo)

Mjadara (arroz com lentilha ou trigo com lentilha, tem receita no blog)

Coalhada fresca, ou seca

Quichek ( sopa libanesa a base de coalhada em po, especial para o inverno)

Fatouch ( salada de alface, tomate, pepino e pedacos de pao arabe frito)

Zota ( sopa libanesa com trigo para quibe)

Cafta ( espetinho de carne moida)

Falefel ( sanduiche de bolinhas feita com massa de grao de bico)

Foul ( a famosa fava, mas feita a moda libanesa….tem receita no blog)

Manaish ( massa de esfirra com recheios variados, tambem tem exemplos no blog)

Pasta de alho para frango ( maionese, batata cozida e alho)

Charuto de repolho e de folha de uva ( recheado com arroz, tomate, carne, etc…)

Abobrinha recheada, Pimentao recheado, beringela recheada ( como o mesmo recheio do charuto)

Beringela em conserva ( recheada com nozes)

Quibe na coalhada ( quibe cozido numa sopa de coalhada)

Salada de pepino com coalhada, tem receita no blog

Quiabo com pedacos de carne e molho

E muitaaaaaaaaa batata frita.

Essa eh uma pequena lista da variedade da culinaria libanesa.

Todas as receitas do blog, estao nesse link, clique aqui!!!

Comida egipcia

Molouhia (sopa de uma verdura especial no Oriente Medio e tem aspecto de baba de quiabo)

Macarrao Bachamel ( maccarao com molho branco, depois de montado e posto no forno e vira uma especie de torta de macarrao)

Foul ( normalmente a fava eh amassada e temperada, vira um pate de fava)

Falefel ( quase igual ao libanes, mas a massa das bolinhas eh de fava)

Arroz com frutos do mar ( muito bom)

Arroz no leite ( cozinham o arroz no leite e em jogam pedacos de carne no meio)

Peixe frito com uma farinha especial que o deixa preto por fora, como se estivesse queimado

Pomba recheada….sim vc leu POMBA

Quiabo ao molho, muitas vezes sem a carne

Abobrinha, pimentao, beringela recheda, mas sem carne moida

Charuto de repolho e de folha de uva, tambem sem carne

Homus ( nao eh temperado como o libanes)

Babaganushe ( tambem com um tempero diferenciado)

Cocheri ( arroz, grao-de-bico, lentilha, macarrao, molho de tomate, carne, tudo misturado)

Tudo feito com uma especie de manteiga, que tem uma cor e cheiro bem forte.

Esses sao alguns dos pratos egipcios que eu conheco.

Como eu nao gosto da comida egipcia, nao sou a melhor pessoa para apresenta-la, mas deixo voces com uma ideia e o principal, para que saibam que a diferenca entre a culinaria egipcia e libanesa eh grande.

Toda comida arabe que comemos no Brasil eh libanesa!!!!!

Afinal existe mais libaneses no Brasil do que no proprio Libano.

Para quem eh egipcio ou que gosta da culinaria deles, nao se sintam ofendidos por eu nao gostar. Mas tambem nao gosto de comida japonesa, chinesa, massas, paes, etc…..

Casa Salomão, um mercado de variedades

•Dezembro 17, 2009 • Deixe um Comentário

Julieta Salomão Mufarrej

texto de Carlos Vera Cruz – graduando de licenciatura em teatro

Entrevista com Julieta Choueri Salomão Antônio Mufarrej, proprietária da Casa Salomão, realizada no dia 25 de novembro de 2009 no próprio estabelecimento.

Há mais de cem anos a Casa Salomão vende tecidos e miudezas. Localizada na Av. Magalhães Barata, em frente ao Museu Emílio Goeldi, ou seja, fora do centro comercial de Belém, é uma das mais tradicionais lojas da cidade de proprietários libaneses.

A própria atmosfera da loja remete ao passado. Um casarão estilo colonial com um amontoado de produtos. De tecidos e miudezas a objetos de decoração e ferragens. E foi em meio a rolos de tecido e caixas de botões que Dona Julieta concedeu esta entrevista.

Seu pai, o Sr. Salomão Antônio Mufarrej, emigrou para o Brasil, por volta de 1897, 98. Veio com a esposa para Belém, por indicação de uma sobrinha libanesa na cidade que emigrou com o marido antes. No Líbano trabalhava na lavoura, em uma quinta da família. Aqui passa a trabalhar como mascate, vendendo miudezas pelas ruas. Não falava português, apenas árabe e francês, segunda língua do Líbano na época. E por este, teve certa facilidade em aprender aos poucos a língua local. Três anos depois chega o tio, Pedro Antônio Mufarrej, para trabalhar com o irmão. Vendiam tecidos e miudezas a pé, chegando aos limites da cidade na época, o Marco da Légua1.

Depois começaram a fazer batelão2 pelo baixo amazonas. Ficam alguns anos fazendo regatão, e em 1907 criam a loja Salomão Antônio e Irmão, uma loja de quatro portas na Av. Independência, atual Magalhães Barata (mesmo local até hoje). Depois compram outras duas casas adjacentes e expandem a loja.
Chegam do Líbano outro irmão e os sobrinhos, e todos em sociedade criam Salomão Antônio e Cia.
O Sr. Salomão adoece e decide fechar a firma. Dois sobrinhos abrem seu próprios negócios. Sr. Salomão morre, Dona Julieta tinha 16 anos. A loja fica fechada um período, e depois dos filhos já adultos a mãe de D. Julieta decide reabri-la. Os sobrinhos doam mercadorias e Dona Julieta vai trabalhar na loja com a mãe. O irmão mais novo vai fazer “praça” no interior. Levava a mercadoria dos primos para vender. Orientadas pelos primos, Dona Julieta e a mãe diversificam os produtos da loja. Além de tecidos e miudezas, ferragens, louças, roupas, etc.

“Quanto mais variedade, mais venda. A gente nunca tira uma mercadoria da vista do freguês, um dia alguém vai ver e compra.”

Julieta Mufarrej

Talvez seja por isso que não é difícil observar na loja produtos que parecem ter saído de um antiquário com produtos recém chegados. Eles dão a Casa Salomão um clima de mercado não só de objetos, mas um mercado de memórias.

1 – “Belém ainda conserva seu primeiro Marco da Légua, de bela confecção em pedra granítica, assentado no canteiro central da Av. Almirante Barroso, quase à esquina do Boulevard Dr. Freitas, que deu nome, mais tarde, ao modelar bairro residencial belenense criado na intendência Antonio Lemos.”
Sérgio Pandolfo
Original de: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1805250

2- batelão: nome da embarcação utilizada pelos mascates para fazer o comércio de regatão.

“O regatão é um mascate, um negociante ambulante, exercido geralmente pelo turco, sírio ou libanês.
O regatão estabelece-se na foz dos grandes rios; ali, ele enche os batelões de cachaça, querosene, sal, charque, fósforos, fumo, munição para armas de fogo, quinquilharias, fazendas ou tecidos ordinários, roupa-feita para homens e mulheres, agasalhos, cobertores e mil bugigangas outras.
Lotados, os batelões, se assemelham a verdadeiros bazares, flutuantes. O regatão sobe os rios à procura da freguesia, composta de seringueiros à margem dos afluentes do rio Amazonas”.
CARVALHO, Hernani de

Original de: http://www.jangadabrasil.com.br/junho34/of34060c.htm

FATLA – DEPILAÇÃO COM LINHA COMO PRÁTICA PERFORMÁTICA

•Dezembro 15, 2009 • Deixe um Comentário

Domingues, realiza depilação com linha

Domingues trabalha há dois anos com depilação com linha, uma das técnicas de cuidado com o corpo, inventadas, ou melhor, criadas pela cultura árabe e que hoje é utilizada de forma comercial por não árabes. Domingues, não é árabe, nem libanês, é um trabalhador em um Salão de Beleza em Belém do Pará. Ele adquiriu a técnica de depilação por linha por necessidade de aperfeiçoamento e crescimento na profissão.

“Conheci a Patrícia que freqüentava o salão e ela sabia fazer a depilação, observei, pedi orientações e aprendi! Ela ensina muita gente…”. Domingues continua: “A maior vantagem deste trabalho, é que ele não agride a pele, como a cera”.

Pelas lembranças de Domingues, Patrícia, a mestra que lhe repassou a técnica, aprendeu a técnica em São Paulo, em um dos cursos de aperfeiçoamento que realizou. Domingues não conhece as origens da técnica apenas a domina com a precisão necessária. “ tenho muitas clientes, mas por enquanto faço mais o rosto, mas estou me preparando para também trabalhar com a perna, precisa de uma linha mais grossa e um tempo muito maior que a depilação por cera , por exemplo. No geral, as pessoas fazem por indicação de amigas, ou por tentar técnicas que não agridam a pele, algumas pessoas têm alergias. Depois, todos desejam ficar bonitos mesmos, homens e mulheres, independente querem sentir-se cuidados, atraentes e bonitos”.

O nome do salão é Yanna, esta grafia, em um primeiro momento, nos remete a cultura árabe, mas a dona do estabelecimento, e também dona do nome, esclarece que nada tem relação seu nome com a cultura, Wlad Lima, também cliente do salão me adverte: “Yanna é indígena!”

Portanto, foi apenas uma coincidência seu estabelecimento oferecer a Fatla –depilação com linha- e ter o nome Yanna, contudo este salão, ou casa de estética, um dos pouquíssimos em Belém, hoje executa uma prática performática de cuidado com o corpo, criada pelo povo árabe, e mesmo sem pertencer a esta teia de significações orientais, passo a considerá-lo nesta pesquisa, como um ponto entre culturas, uma pratica de interculturalidade, nesta fenda entre culturas. Melhor dizendo, como um aspecto que proporciona o contato entre duas culturas em valores de beleza, higiene, cuidado com o corpo, e ao mesmo tempo contrapondo-se as primeiras informações de que é uma exclusividade da construção feminina. Pelo menos neste ponto intercultural do Salão Yanna, esta é uma prática brasileiramente, árabe! entretanto a questão que se coloca é será uma pratica dos descendentes de libaneses, ou não é uma técnica que se fortalece por questões do mercado?

O comércio na memória dos descendentes de libaneses

•Novembro 25, 2009 • Deixe um Comentário

mascate

….Chegando, já casado, em Belém, e devido a diferença de idade e serem imigrantes, eles ficaram detidos dois dias na ” aderaneira”, em seguida foi liberado residindo algum tempo no hotel América, na esquina da João Alfredo com a avenida Portugal. Seguiram, depois para Castanhal, passados alguns meses, vindo estabelecer-se em Belém.
Em 1921 instalou o comércio de varejo “CASA AMERICANA”, onde constituiu sua familia formada por oito filhos, sendo seis mulheres: Fátima, Zena, Avia, Lucy, Linda e Damia e dois homens José e Elias. Assad Elias Assad Gorayb fundou a firma A. Gorayeb & Cia., no mes de julho de 1921. ainda hoje administrado por seus descendentes e permanecendo na estrutura do imóvel.
Adquiriu o imóvel através do emprestimo pela Caixa Economica Federal com a ajuda financeira do banco do estado do Pará. Hoje, o predio é tombado pelo patrimõnio histórico.Assad Elias Assad Gorayeb faleceu em 01 de setembro de 1957 e Zehde em 20 de julho de 1977”.
Lucy Gorayeb Mourão

Felix Rocque “… Com seu arrojo, sacudiu a cidade, transformou a Festa de Nazaré, modelando-a a seu estilo. Fora da festa, em seu Palace Casino (no extinto Grande Hotel) centralizou a vida social de Belém, apresentando shows que nada ficavam a dever aos centros mais evoluídos.” “… Para exibir Beatriz Costa, Felix construiu, em 6 dias, o Teatro Coliseu, para 2.000 pessoas.” “ … Trouxe também Orlando Silva, o “cantor das multidões”… o Augusto Calheiros… a mais popular dupla de cômicos do Brasil, Jararaca e Ratinho; outro cômico de renome, o Jorge Mudar, que se celebrizara com suas imitações de libanês .”

Dulce Rocque

Lá ele compra uma taberna de uma viúva e constrói seu primeiro comércio completo: a Mercearia São Jorge, com aviamentos, armazéns de estivas, armazém de cachaça e farmácia. Compra canoas a vela para vir até Belém vender milho, farinha, algodão e comprar tudo o que vendia na mercearia também. Lembro que meu pai contava que às vezes eles vinham de trem de Bragança até Belém pra comprar e pagar as mercadorias. Desciam na estação em São Brás, onde fica a rodoviária agora, e de lá seguiam em caminhos , passando pelo igarapé das almas, a doca do reduto e ver-o -peso e lá ficavam uns dias esperando as embarcações para levar as mercadorias…….. Isso é o que sei de meu avô, relatado pelo meu pai. Sei também através de minha mãe que todos os comércios que meu avô montou para os filhos homens “eles jogaram tudo no mato com mulheres”. Ou como minhas tias “os manos não tinham trato com o comércio, meu pai era que tinha..eles não herdaram o dom” RS!. Não sei até que ponto era verdade, sei que meu pai adorava um rabo de saia… Como meu avô. RS!

Jef Cecim

A idéia de abrir um restaurante veio por um acaso é uma paixão e uma forma de manter uma tradição, pois sua maior renda esta no ramo da imobiliária onde atua como corretora de imóveis, profissão que adora e se orgulha: “ faço a comida árabe desde criança e estou mantendo o negocio já tem sete anos, sigo a risco as receitas. Minhas poucas adaptações não modificaram o sabor, no caso da castanha – do- pará é muito gostosa, melhorei o sabor do charuto de repolho, substitui a folha da parreira pela vinagreira que á tipicamente paraense”. Marlene acrescenta: “… as pessoas que freqüentam o restaurante têm uma cultura elevada, viajam bastante, conhecem outros restaurantes libaneses e geralmente pertence à classe média alta”.

Marlene Abdelnor

“As histórias contadas e recontadas, por mulheres ligadas a cultura libanesa, estão impregnadas nas lojas do centro comercial de belém, nas ruas da cidade velha, e em muitos outros lugares, pequenos vilarejos dos arredores da capital belemense, a exemplo de uma cidadezinha chamada São Domingos do Capim. É tembém de lá que vem minha família… Avós Maternos: João Yagupe Daibes e Benedita Leon Yara, ambos filhos de libaneses; Yagupe Daibes Hamouch e Salomão Leon Yara (Iara), estes vieram para Belém em situação de tanta semelhança, em busca de trabalho, expansão dos negócios e empurrados pelos conflitos que se instalaram no Líbano

Maridete Daibes

Nossa história no Brasil começa com a migração de José Chaar (nome adotado nestas terras, seu nome árabe era Naaman Chaar), durante o primeiro ciclo da borracha. Ele se fixa no Acre, como mascate. E atravessava à Bolívia para tentar a sorte no jogo. Antes deve ter passado por outros Estados, talvez pela Paraíba, é de lá minha bisavó Josefa (alguns dizem que era piauiense). José tornou-se seringalista, e como era comum na época entre os “homens de posse”, mudou-se para um casarão em Belém. Tiveram seis filhos, entre eles minha avó Charife, que não cheguei a conhecer, de quem mais ouço falar. Uma gente que se espalhou por muitos cantos, gerou muitos ramos, às vezes a impressão é de todo libanês ser meu primo, do Acre a São Paulo.

Natália Abdul Khalek